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    Rui Baptista

    Meu caro Carlos Silva : Dos teus comentários bem elaborados (numa altura em que uns tantos alunos e mesmo licenciados universitários mal sabem alinhavar um pensamento com pernas para andar) e com a agressividade, “quantum satis”, para com a jornalista do “Expresso”, de seu nome, Ana Cristina Leonardo, que, numa perspectiva maniqueísta, tentou convencer os seus ingénuos leitores de que antes de 25 de Abril tudo era mau e que depois desta data, com uma espécie pós de perlimpim , se passou a viver num mar de rosas. Um mar de rosas, em que navegam de vento em popa, os governantes, os deputados, os banqueiros e a chamada, por vezes e indevidamente, “ elite portuguesa”, são tidos como autênticos meninos de coro. Tese de difícil aceitação que não convence ninguém! Muito menos os “Desmemoriados da Historia”( Ana Cristina Leonardo “dixit”) mas que, apesar de tudo, tem a memória suficiente para confrontar as coisas más e as coisas boas de antes de 25 de Abril e as coisas más e as coisas boas depois o golpe de estado dos capitães revoltados com a entrada de capitães milicianos no quadro de oficiais de carreira preenchido por profissionais da guerra oriundos da Academia Militar. (A chamada Revolução dos Cravos foi feita em clima de festa pelo povo, com alguns dos seus participantes numa espécie de romaria de “maria vai com as outras”, com é uso dizer-se!).

    Oficiais do Quadro Permanente, profissionais da guerra (a própria Academia Militar teve, em tempo recuado, o nome de Escola de Guerra), assim como os professores são profissionais do ensino e os médicos profissionais da saúde. Pensemos, por exemplo, que os professores se recusavam a dar aulas por estarem fartos de aturar os alunos e os médicos desmotivados de tratarem os doentes. A analogia é uma forma de raciocínio que aqui bem se aplica. Claro que melhor do que combater é estabelecer chorudos negócios com as nossas antigas províncias ultramarinas, caso de Otelo Saraiva de Carvalho e outros, pelo que se vai sabendo pelos media. Repare-se que não foi por acaso que a descolonização de Angola e Moçambique esteve entregue, respectivamente, a Rosa Coutinho (o chamado “Almirante Vermelho”) e a Vitor Crespo com um apodo não menos sugestivo…

    Muito menos foi por acaso que os militares, imediatamente após o 25 de Abril, podiam trazer no regresso à então chamada Metrópole, todos os bens por si adquiridos em vésperas do seu regresso a penates e dinheiro amealhado, enquanto aos civis, que juntaram uns cobres, em árduos trabalhos em terras de África, essa benesse lhes estava vedada regressando, muitos deles, apenas com as roupas que traziam em cima do corpo ou pequenos contentores com alguns tarecos.

    Antes de terminar, desejo vincar que tenho consideração das por uns tantos oficiais do Quadro Permanente, alguns deles meus camaradas durante o meu serviço militar como oficial miliciano. Desejo, também, deixar vincado o meu repúdio pela PIDE, e seus métodos torcionários, e abominar, ainda mais, a COPCON que praticava abomináveis sevícias e prendia pela madrugada todo aquele que se lhe opunha, com mandatos de prisão em branco. Discordo, ainda, da censura prévia dos coronéis do “lápis azul” do Estado Novo por impedir os cidadãos da liberdade de expressão , essa sim, uma das grandes conquistas do 25 de Abril. Discordo, finalmente, dos que cantam hossanas ao 25 de Abril e que antes desta data eram sabujos da Antiga Senhora. Discordo, “last but not least”, de uma descolonização feita à pressa sob “ o Sol na Terra”, Moscovo, nas palavras de Álvaro Cunhal. É esta a minha memória de factos (e não simples opiniões) que vivi, testemunhei e que foram vividos e testemunhados por muitos outros “retornados” que permanecem com a memória fresca, com excepção de ” renegados” que mudam de partido político como quem muda de camisa. Nunca como hoje, me convenço ser verdadeiro o dito popular: “ Muitos mudam de mulher e de partido; ninguém muda de clube!

    E aqui está, meu caro Carlos Silva , a resposta um tanto ao correr da pena, aos teus comentários de um dignidade e coragem de que eu te estou devedor e todos aqueles que não se vendem por um prato de lentilhas. Um abraço amigo a quem, como tu, nos dias que correm, em que “a prática da vida tem como única direcção a conveniência” (Eça de Queiroz), se mantêm firmes nas suas memórias e nas suas convicções. Haja em vista o outro lado da moeda que transcrevo do “Finantial Times” (10/03/2004): “Os revolucionários em Portugal já não são o que eram. Agora identificam-se pelos seus fatos listados e telemóveis topo de gama”.

    E se, segundo a Ópera “Rigolleto”, “la donna è mobile qual piuma al vento”, alguns desses revolucionários ocupam hoje cadeiras no Governo, sentam-se nas bancadas de S. Bento e são personagens da alta finança conseguindo a proeza de serem ainda mais volúveis do que as personagens femininas de Verdi.

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