8 Comments

  1. 4

    Nelson Silva

    Este “Baú das Memórias” e o comentário de José João Reis, trouxe-me à mente algumas recordações sobre o jornal.
    O João Reis saiu de “A Tribuna” – cuja propriedade, conjuntamente com o “Notícias”, passou para as mãos do B.N.U. – levando consigo o José Craveirinha e fundou “O Jornal”, cuja redacção funcionava na Rua Araújo.
    Porque eu achava que “escrevia umas coisas” e que a natação precisava que alguém a promovesse para além da publicação do anúncio dos torneios e dos resultados neles registados, pedi ao meu pai – que sabia amigo do João Reis – que o contactasse a oferecer a minha colaboração.
    Comecei em Fevereiro de 1971 e, quase logo, porque o horário que tinha no Instituto Comercial assim o permitia, passava por lá praticamente todo o meu tempo livre – partilhando a sala com o José Craveirinha, o chefe de redacção – e alarguei a minha responsabilidade a outros desportos e actividades citadinas.
    Foi um ano muito feliz, não só porque fazia algo que gostava muito e tinha a oportunidade de conviver e conversar com dois sábios: João Reis e José Craveirinha.
    Ocorriam, geralmente, altas horas da noite, já depois do fecho das edições, enquanto aguardávamos que o Emanuel concluísse o trabalho de pré-impressão. Emanuel era como era então tratado quem, mais tarde, ficou conhecido por Prof. Lesagi Zandinga. Embora me recorde que ele também escrevia “umas coisas” de vez em quando, não vou garantir que era ele quem fazia as previsões astrológicas, se é que “O Jornal” tinha tal secção.
    Exactamente um ano depois, Botelho de Melo, que além de comandar a companhia de trânsito da P.S.P., se ocupava – entre outros desportos – da natação n´”A Tribuna”, transmitiu-me o convite do chefe da secção de desportiva, Alfredo Maria Freire, para vir a integrar a equipa, com a responsabilidade principal pela cobertura do hóquei em patins. E assim me tornei colega, para além dos já citados, de Ângelo de Oliveira, Cagica Bernardo, José Paiva Henriques e dos repórteres fotográficos Eduardo Neves e Niza Paiva. Era uma equipa que percebia de desporto – com quem muito aprendi não só sobre cada modalidade – mas também sobre a forma de nele se estar.
    Nessa altura, o director era Fernando Amaro Monteiro, chefiando a redacção Domingos de Azevedo, tendo como adjunto Fernando de Carvalho e secretário Abel Tavares de Almeida. Nesta altura, ainda me lembro de ver aparecer o Gouveia Lemos, mas o Ricardo Rangel, que entretanto tinha ido à Beira trabalhar, acabou por pouco depois do regresso, ingressar na “Tempo”, passando a concorrência.
    Este conjunto de pessoas acharam que eu devia transitar do desporto para a reportagem, o que veio a acontecer logo em Setembro.
    Passei então a ter como como chefe Tavares de Almeida, sucedido por Maurício Costa, por sua vez substituído, após a sua morte, por José Solano de Almeida. Como colega, tive, entre outros, Conceição Lobo. Não acrescento mais ninguém, porque me faltam alguns nomes e não quero desmerecer em ninguém e estes dois últimos mais facilmente são recordados por terem entrado para os quadros da R.T.P. Era uma equipa que, o que sabia no dia, contava no dia, cumprindo fielmente a missão de um vespertino, como era “A Tribuna”.
    Em 25 de Abril de 1974, Fernando de Carvalho, que além de adjunto do chefe de redacção, entrava bem antes da hora para se ocupar dos telexes do estrangeiro e de enviar notícias param os jornais de que era correspondente, perguntou-me à minha chegada à redacção pelas 7, 30 horas, se tinha observado algum movimento de forças militares, ao que respondi negativamente. Pediu-me para me meter no carro e dar uma volta pelo Esquadrão, Batalhão de Caçadores 18 e Quartel-General. Assim fiz e regressei com a notícia de que nada acontecia.
    Contou-me, então, que recebia telexes da então Rodésia e África do Sul a informar de um golpe militar em Portugal Continental e, como não havia notícias provenientes de Portugal, começaram os telefonemas de jornais desses países a quererem saber o que nós, por ignorância, também não podíamos contar.
    Pelas 8 horas chegaram os restantes elementos da redacção, tendo sido discutida a situação e face ao inusitado da situação, pelas 9 horas, resolvemos telefonar ao chefe de Gabinete do Governador-Geral de então, Eng. Pimentel dos Santos, para ver o que ele sabia. O homem ficou possesso quando lhe foi colocada a questão.
    Uma hora depois, telefonou-nos, mais cordato, solicitando que dois agentes da PIDE fossem à nossa redacção para ler os telexes, porque o Governo-Geral e a PIDE não conseguiam comunicar nem com o Ministério do Ultramar, nem com a António Maria Cardoso.
    Tivemo-los lá toda a manhã e como é sabido, a já o 25 de Abril estava controlado pelo MFA, foi proibida uma primeira edição e só na segunda, quase noite, “A Tribuna” era o primeiro jornal a contar a queda do regime de Caetano.
    Dias depois fomos – uma equipa alargada – ao Governo-Geral ouvir o General Costa Gomes, tendo-me cabido entrevistar um dos oficiais que o acompanhasse e que tivesse participado no golpe militar.
    Escolhi um dos que não reconhecia de entre os da guarnição local e sentámo-nos no gabinete da secretária do Eng. Pimentel dos Santos. Sem nenhuma emoção especial tomei nota que chamava Otelo Saraiva de Carvalho e que era natural de Lourenço Marques. Tomei igualmente nota de acontecimentos por ele vividos no dia do golpe. Pediu-me, no final – o que cumpri – que não divulgasse o nome, porque havia ainda pessoal da PIDE livre e ele temia que a família pudesse vir a sofrer com a sua imprudência ao divulgar alguns pormenores. De qualquer forma, a primeira entrevista de Otelo Saraiva de Carvalho foi n´ “A Tribuna”.
    Mais tarde, um tio dele, Fernando, com quem passei na Inhaca as últimas férias em Moçambique, contou-me que nessa noite o chamou à atenção para a sua falta de contenção na entrevista, tendo-se Otelo defendido alegando que o repórter estava bem preparado (mas a gente sabe como o Otelo gosta de falar…).
    Logo de seguida, Rui Knofli assume a direcção do Jornal, assessorado por Fernando Magalhães, entrando, ainda em Maio, mais uns quantos enviados pela Frelimo. Lembro-me, por exemplo, de Mia Couto e de Luís Carlos Patraquim.
    Logo depois do 21 de Novembro, sou chamado pelo Fernando Magalhães para saber por qual das nacionalidades optava, portuguesa ou moçambicana.
    Assim que disse “portuguesa”, fui instruído para ir aos serviços administrativos tratar da minha saída imediata de “A Tribuna”.
    Curiosamente, o moçambicano Rui Knofli ainda lá ficou uns meses e, talvez já português, foi colocado como adido de imprensa na embaixada portuguesa em Londres, enquanto que, mais tarde, o também moçambicano Fernando Magalhães só conseguiu um lugar na RTP.
    Espero ter dado uma achega na história d´”A Tribuna”, como pretendia o Bigslam.pt.

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    1. 4.1

      Lezagi Zandinga

      Em resposta e correção ao comentário do Sr. Nelson Silva, o Emanuel depois conhecido por Zandinga nunca trabalhou no Jornal Tribuna mas sim no Eco e Jornal Noticias no Funchal, e no Porto no Jornal Noticias com previsões e signos.
      Cumprimentos
      LZ

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      1. 4.1.1

        Nelson Silva

        Efectivamente nunca trabalhou em “A Tribuna”, pois, tal como refiro, trabalhou em “O Jornal”, propriedade de João Reis

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    2. 4.2

      Admin

      Muito obrigado Nelson Silva, pelos preciosos esclarecimentos informativos que trouxe a este post.
      Parabéns pela sua excelente memória.
      Apareça sempre neste nosso “Ponto de Encontro”! Aquele abraço.

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  2. 3

    Jose Joao Reis

    Mestre J. Garizo do Carmo concebeu o mais moderno e Avant-garde layout de sempre de um jornal em língua portuguesa (incluindo todas as colónias, o Brasil e Portugal na Europa)… Seu título: A Tribuna da ex LM nas terras dos Mpfumos…O seu layout receberia louvores além fronteiras. Como homem de seu tempo, mestre Jorge Garizo do Carmo era vigiado pela Pide, sobretudo de 1962 a 1965. Foi o melhor designer de interiores e de decoração em Moçambique onde na altura se encontrava a elite portuguesa liberal da cultura do qual mestre Garizo do Carmo fazia parte como assim do Cine-Clube e de outras tertúlias. No jornal Tribuna era o responsável criativo do seu pós-moderno grafismo e o grande Gouvea Lemos o chefe da redacção e José Craveirinha redactor onde introduziria o muito jovem Luís Bernardo Honwana para repórter. O proprietário desse jornal anti-colonial foi o “tio Kufemba” ou melhor João Reis dono da melhor discoteca (verdadeira de vender discos de jazz e música erudita e livros de arte).(moçambique para todos- macua blogs – Joao Craveirinha)

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    1. 3.1

      Admin

      Kanimambo José João Reis, pelo acrescento de informação que trouxe a este post.
      Apareça sempre neste nosso “Ponto de Encontro”!

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  3. 2

    António Rendas Pereira

    LINDO. TINHA 10 ANOS

    Reply
  4. 1

    Wanda Serra

    RECORDO ME PERFEITAMENTE!!!!

    WANDA SERRA

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