Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo
(1ª parte)
Quem poderia supor que alguém licenciado pelo Instituto Superior de Agronomia, enveredasse pela carreira politica de uma forma ativa, tornando-se depois empresário, assumindo posteriormente na sua deslocação para Moçambique, o papel de agente secreto e espião, a par de um homem de negócios bem sucedido com destaque para a exploração do cultivo do algodão. O agente secreto do Estado Novo, assim se familiarizou o nome de Jorge Pereira Jardim, um homem de aspeto franzino, mas de forte audácia e determinação, que protagonizou cenas rocambolescas tornando-o no James Bond português e reconhecido além-fronteiras.
Jorge Pereira Jardim, nasceu em Lisboa em 1919, e concluiu o curso de engenheiro agrónomo em 1943. Foi presidente da Associação dos Escuteiros de Portugal, e assumiu a presidência da Juventude Agrária e Rural Católica. Com apenas 29 anos, Oliveira Salazar, concedeu-lhe a pasta de subsecretário de Estado do Comércio e Indústria, contudo e pese o seu bom desempenho reconhecido pelo Chefe do Governo, entrou em rota de colisão com o ministro Ulisses Cortêz, levando-o a pedir a sua demissão. Ficou a aguardar por novas oportunidades, mas África chamava por si e muitas aventuras esperavam por ele. Aprendeu a lutar logo desde miúdo, e o primeiro obstáculo a superar foi uma meningite que o apoquentou.
Abraçou o escutismo e chorou compulsivamente quando ficou livre do ingresso no serviço militar, mas a ideia de envergar um uniforme mexia com a sua personalidade, de tal forma e quando já membro do governo equipava-se com fardamentos dos bombeiros para ir combater incêndios. A verdade é que dentro de si fervilhava o apelo da defesa do Império, porventura decorrente dos tempos de estudante do ensino superior, pelo que os anseios de conhecer as savanas africanas fascinavam-no e para isso muito contribuiu Barden Powell, fundador do movimento escutista.
Em 1952, embarcou para a vila do Dondo na zona centro de Moçambique, a convite do empresário Raul Abecassis, para dirigir a fábrica da Lusalite, viajando consigo a sua esposa que se encontrava grávida e quatro filhos menores.

Entrada da fábrica da Lusalite no Dondo – Moçambique.
Lá chegado, recebeu também a concessão por parte da Junta de Exportação de Algodão Colonial, de grandes áreas do cultivo do chamado “ouro branco” a quem competia garantir a compra de toda a produção no final da safra de forma a garantir o abastecimento da indústria têxtil na Metrópole. Lá, ele foi paulatinamente construindo um verdadeiro império económico, ao mesmo tempo que se tornava uma figura de imensa influência política, muitas vezes à margem das autoridades civis e militares.
Era deputado à Assembleia Nacional e usou a posição política para montar no terreno uma rede de informações e desenvolver relações com países vizinhos, nomeadamente o Walawi e a Zâmbia. Jorge Jardim, mercê da confiança que estabeleceu com Hastings Banda,

Hastings Kamuzu Banda – Presidente do Malawi de 1964 a 1994.
torna-se vice-cônsul do Walawi, o que lhe permitiu obter passaporte diplomático daquele país vizinho e facilitando-lhe assim deslocar-se livremente por todo o continente africano. A Zâmbia, que faz fronteira com Moçambique, mereceu uma especial atenção por parte de Jorge Jardim, que rapidamente estabeleceu uma ligação pessoal e de confiança mútua com o seu presidente, crucial para as aspirações políticas de Jorge Jardim. A Zâmbia, dependia das rotas de comércio portuguesas e com o eclodir da guerra colonial, o presidente Kenneth Kaunda, precisava de assegurar o escoamento dos seus produtos. A amizade entre ambos era patente extravasando os parâmetros de uma simples parceria política.
No Dondo, a família de Jorge Jardim ia crescendo e o seu lar registava já 12 filhos – nove raparigas e três rapazes, tendo ainda apadrinhado uma criança de ascendência chinesa. Amava a sua família como poucos e sobretudo na cidade da Beira, o seu clã era propalado pelas mais diversas intervenções nos círculos sociais, políticos, desportivos do burgo local. Na área da comunicação social, Jorge Jardim tinha forte influência no “Noticias da Beira” e na “Emissora do Aeroclube da Beira” onde era muito participativo.

Kenneth Kaunda – 1º Presidente da Zâmbia e governou durante 27 anos. Faleceu em 2021 com 97 anos de idade.
A verdade que já ninguém parecia desconhecer, a capacidade do estratega Jorge Jardim profundo conhecedor do que se passava no quartel-general da Frelimo em Dar es Salaam, capital da Tanzânia, que contava com o apoio do seu presidente Julius Nyerere, considerado um das figuras mais influentes na história moderna de África, e para o efeito conseguiu montar um esquema de recolha de informações através de um íntimo colaborador. Estávamos então no início do conflito armado, desencadeado a 25 de Setembro de 1964. Com o apoio financeiro português, Jorge Jardim criou os “Flechas” que eram concretamente um corpo de milícias militares compostos por voluntários africanos bem treinados e conhecedores do terreno que pisavam, coordenados pela sua filha Maria do Carmo Jardim, eximia paraquedista que com apenas 19 anos, chegou a ser honrada com uma distinção e considerada a mulher mais audaciosa do mundo, e com quem o seu pai fez o salto de batismo.

Jorge Jardim e a sua filha Carmo Jardim

Carmo Jardim, filha de Jorge Jardim, aqui homenageada pelo General Kaúlza de Arriaga, na altura chefe das tropas portuguesas em Moçambique, pelo seu trabalho no para-quedismo.
Esta sua veia militar, reflete não apenas o espírito aventureiro da família, mas também uma profunda ligação e envolvimento direto com os conflitos e a realidade política do território.
Apesar da sua vida agitada e das constantes movimentações, Jorge Jardim revelava um dos lados mais inesperados e astutos ao estar intimamente ligado à promoção dos concursos Miss Moçambique,

Ao centro, Iris Maria – Miss Moçambique e Miss Portugal 1972, e Jorge Jardim.
e usava-os como um método eficaz de relações públicas e de poder, e ao mesmo tempo uma forma de projetar uma imagem de normalidade e sucesso para o território, apesar da rebelião militar em curso. A sua posição sai reforçada nas festas da elite social beirense, destacando-se também uma das suas filhas, a conhecida socialite Cinha Jardim.
Isto ilustra bem como Jorge Jardim, navegava entre o mundo da guerra, da política, da diplomacia e dos eventos sociais. Estes aspetos da sua vida familiar mostram quanto os Jardim, estavam imersos na vida de Moçambique. Desta forma tentarei com objetividade, nos próximos posts dar a conhecer as ações em que se envolveu, onde com mestria soube construir uma teia de relações estabelecendo as suas próprias regras para lançar ações de espionagem e sublevação em África, ao estabelecer contactos informais com alguns líderes ou conspiradores, e a forma como preconizou o seu projeto para a Independência de Moçambique.




2 Comentários
Samuel Carvalho
Excelente resgate histórico!
O artigo traça um retrato fascinante de Jorge Jardim, figura enigmática, estratega diplomático e homem de bastidores do Estado Novo. Com riqueza de detalhe e escrita envolvente, o texto prende o leitor e ajuda a compreender o papel de Moçambique no xadrez geopolítico da época.
Mais uma vez, o BigSlam cumpre a sua missão de preservar e divulgar memórias marcantes da nossa história comum.
Parabéns ao Manuel Terra!
BigSlam
Artigo fascinante! Um retrato revelador de Jorge Jardim e do seu papel nas sombras do Estado Novo.
A não perder!