Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo
(5ª parte)
O ano de 1973 corria célere e, já depois de ter sido elaborado o Tratado de Lusaka, cujo conteúdo era reconhecido por Jorge Jardim e Kenneth Kaunda, e que projetaria a Independência de Moçambique para a chamada “Terceira Via”, o Presidente da Zâmbia mostrava alguma apreensão pelo facto de tardar o “sim” do governo português, legitimando assim o acordo.
Jorge Jardim, numa corrida contra o tempo, passou a ser visto com mais frequência na cidade da Beira. Era a partir do seu escritório, que utilizava como entreposto comercial dos seus alargados negócios, que operava um sofisticado sistema de emissão e escuta, cuidadosamente dissimulado entre secretárias e armários, permitindo-lhe recolher informações privilegiadas.
Funcionava como ponte para vários serviços secretos favoráveis a Portugal e, por vezes, até hostis entre si, nomeadamente a CIA, os ingleses do MI6 e o experiente Service de Documentation Extérieure et de Contre-Espionnage (SDECE), organizações com vasta experiência em serviços de informação e contra-informação no continente africano.
Basicamente, Jorge Jardim procurava apoios. Especialista ao mais alto nível no mundo da diplomacia, tentava captar a simpatia e o apoio dos líderes da África Subsaariana. Para ele, contudo, o mais importante era manter uma relação privilegiada com os países que faziam fronteira com Moçambique e que tinham influência direta na estabilidade da região.
O seu escritório era, na prática, o centro nevrálgico dessa rede de influência, criando uma aura de secretismo em torno de tudo o que fazia na Beira, onde era uma figura mediática da sociedade local.
Quando o relógio parecia parado, Jorge Jardim acelerava os ponteiros e, nos finais de 1973, fechava o dossier do plano para o futuro do país. Fiel ao seu estilo de agente secreto e diplomata paralelo, transportou-o pessoalmente na sua pasta para Lisboa. Utilizava frequentemente aviões particulares e rotas discretas nas suas deslocações entre a Beira, Lusaka, Malawi e Lisboa.
Foi na Assembleia Nacional, onde participava ativamente como deputado por Moçambique, que, no dia 7 de março de 1974, Marcelo Caetano o recebeu num dos seus gabinetes para aquele que seria o encontro decisivo. Tratava-se da derradeira tentativa de encontrar uma “Terceira Via” para a descolonização, evitando tanto a continuação da guerra colonial como uma entrega total do poder à FRELIMO, sem consultas populares.
Jorge Jardim encontrou Marcelo Caetano bastante nervoso e fragilizado, prisioneiro das alas mais conservadoras do regime, que recusavam qualquer cedência na política ultramarina, preferindo insistir na via militar.
Marcelo Caetano via-se encurralado e sabia que não possuía a força política de Salazar. Respondia com frases curtas e um olhar fixo, dividido entre a lucidez que lhe dizia ser tempo de reformar e o medo que o impedia de agir.
Temia que, ao aceitar um plano que previa a autodeterminação e o diálogo direto com a guerrilha e com figuras relevantes da sociedade moçambicana, fosse destituído do cargo de Presidente do Conselho por uma ala liderada pelo Presidente da República, Américo Thomaz, e por generais conservadores do regime.
Marcelo Caetano acabaria por rejeitar formalmente o plano traçado em 1973.
Kenneth Kaunda ficou profundamente desapontado com essa recusa, pois acreditava que Jorge Jardim era o único canal capaz de evitar o prolongamento da guerra. O próprio Jorge Jardim afirmaria mais tarde que essa tinha sido a última oportunidade perdida pelo Estado Novo para uma descolonização controlada.
A rejeição do plano acabou por provocar turbulência nos meios militares e deixou claro que o governo não possuía uma solução política para a guerra, apostando apenas numa persistência militar sem fim.
Jorge Jardim já tinha registado o crescente descontentamento dos capitães que combatiam na frente e que, naturalmente, defendiam uma solução que passava pelo derrube do regime ditatorial.
Já em jeito de despedida, avisou Marcelo Caetano de que Moçambique estava “a prazo” e de que ninguém sairia vencedor daquela situação delicada. Poucas dúvidas tinha de que o regime tinha os dias contados.
Permaneceu mais alguns dias na capital portuguesa, onde contactou alguns amigos, entre eles o velho conhecido Pombeiro de Sousa, antigo cônsul no Malawi e seu dedicado confidente.
Como era habitual, hospedava-se no Hotel Ritz e preparava-se para regressar a Moçambique no dia 26 de abril de 1974, onde pretendia, supostamente, elaborar o chamado Plano B.
Contudo, Lisboa, no dia 25 de Abril de 1974, não acordou ao som dos despertadores, mas sim com o ruído provocado pela passagem dos tanques militares nas suas ruas.
Enquanto a maioria dos lisboetas ainda dormia, a revolução já passava na rádio, tendo como senha a célebre “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso. A cidade despertava com o ranger das lagartas dos tanques sobre o empedrado. Reinava a incerteza de um golpe sangrento, em vez de uma transição pacífica.
No interior do hotel, onde esperava realizar a sua última reunião, Jorge Jardim foi avisado por alguém do seu círculo mais restrito e de absoluta confiança — pensa-se que terá sido João Maria Tudela — sobre o que se estava a passar na cidade e de que o cerco apertava.
O mandato de captura contra Jorge Jardim foi imediatamente acionado, estendendo-se de norte a sul do país. Aeroportos, portos marítimos e fronteiras foram colocados em alerta devido ao perigo da sua fuga para Moçambique.
Costa Gomes, Pezarat Correia e Otelo Saraiva de Carvalho, que o conheciam dos palcos da guerra em Moçambique, olhavam-no com grande desconfiança devido ao seu protagonismo e aos seus planos para a independência do território.
Mais do que isso, receavam que, caso conseguisse fugir de Portugal e chegar ao Dondo, pudesse proclamar, à revelia da Junta de Salvação Nacional e do Movimento das Forças Armadas, um governo alternativo inspirado numa “solução rodesiana”, hipótese que Jorge Jardim sempre negou.
Ainda no interior do hotel, ouvia a multidão em verdadeira euforia gritar palavras de ordem como: “VITÓRIA!”, “ABAIXO O FASCISMO!”, “FASCISMO NUNCA MAIS!” e “VIVA A LIBERDADE!”. Paradoxalmente, era precisamente Jorge Jardim quem via a sua liberdade mais ameaçada.
Quando percebeu que a ordem de prisão era iminente, começou imediatamente a preparar o seu plano de fuga.
O Embaixador do Malawi em Lisboa, com quem mantinha uma relação de quase família, encontrava-se já de prevenção e pronto para o acolher. Jorge Jardim colocou os seus pertences num saco e, segundo o seu próprio testemunho, escondia no fundo três granadas e uma arma, prevenindo o pior cenário.
Com Lisboa mergulhada na revolução e os tanques a circularem pelas ruas, abandonou discretamente o Hotel Ritz e entrou num táxi que o levou até à Embaixada do Malawi, na Lapa.
Ao optar por um táxi em vez do automóvel de um colaborador, conseguiu misturar-se no trânsito caótico daquele dia, escapando às patrulhas militares que procuravam figuras ligadas ao antigo regime. Certo é que o motorista jamais imaginou que transportava um dos homens mais procurados de Portugal.
A entrada na Embaixada do Malawi permitiu-lhe respirar de alívio. Na qualidade de cônsul honorário daquele país africano, beneficiou da proteção conferida pelo seu estatuto diplomático, ficando fora do alcance imediato das autoridades.

- No próximo artigo, darei conta dos dias que se seguiram e da sua rocambolesca fuga para Espanha.
Manuel Terra – Julho de 2026




11 Comentários
António José Vilares Lopes
Muitos Parabéns ao Manuel Terra por este artigo, muito interessante e elucidativo da situação que se verificava em Moçambique. Eu estava na tropa nesta altura e tinha vindo de Mueda para Nampula, para o Agrupamento de Engenharia. Já aqui tinha estado aquando da Especialidade, onde tive o privilégio de conhecer os ilustres Comandante eng. Vasco Gonçalves, futuro primeiro ministro e o colega eng, Mira Amaral, futuro ministro.
Grande Agrupamento de Engenharia, que teve estes ilustres membros!
Acho que seria também muito importante conhecer as opiniões das manas Jardim, filhas de Jorge Jardim, em particular da mediática Cinha Jardim., no que diz respeito à forma como viveram e sentiram este período nas suas vidas.
Grande abraço ao meu antigo colega Manuel Terra
Manuel Martins Terra
Um grande para ti também, Vilares Lopes.
Manuel Martins Terra
Um grande abraço para ti, Vilares Lopes
2luisbatalau@gmail.com
MARAVILHOSO DOCUMENTÁRIO SOBRE JORGE JARDIM QUA MANUEL TERRA COMPLETOU. KANIMAMBO
nino ughetto
Bem visto Parabens M.Terra, Eu ??? sinceramente Nunca compreedi a Politica nem interior nem exterior..Hoje. sou mais sabido, pois vejo a politica dos dois lados os interesses internalcionais; (Tenho pena de nào ter o don de escritor nem bastante instruçào , Hoje vejo os interesses dos Paises exteriores para terem a liberdade de explorare os mais fracos. “”Nào hà amigos sO interesses””. Bom poderia escrever todo o dia, mas à qué de bom ??? ( L.Marques Moçabique està perdido). Tudo passou Tudo acabou.. Fiz 4 anos serciço militar
João Santos Costa
Amigo Manel, obrigado por mais esta cativante publicação sobre as movimentações de Jorge Jardim para a independência que ele queria para Moçambique.
Se depois de conseguida era estável? Tenho para mim que não! Os países africanos não a iam reconhecer.
Recebe um grande abraço deste teu amigo João.
Joaquim vieira
Jorge Jardim não teria a mínima hipótese de tornar Moçambique independente ou mesmo autónomo .
As forças armadas ( estive de Jan 67 a Jan 71 na Fá e no ExercIto) tinham instruções de Lisboa para cessar imediatamente de combater e assim fizeram .
Para além de Daniel Roxo e os seus poucos flechas , jardim não tinha poder nenhum nas forças armadas . Ora com a Frelimo muito melhor armada e financiada pela Umiao Sovietica que poderia ele fazer ? Nada
Aliás em Setembro houve a sublevação do RCM o povo de Lourenço Marques aderiu em massa e veio alguém apoiar ?? Nem os sul africanos ….
A comunidade internacional queria a Frelimo no poder !
Era uma questão de tempo . Nos anos 60 talvez se pudesse ter encontrado uma solução com a Guiné a dar o exemplo . Marcelo nunca quiz e teve sempre medo de Tomaz e dos ultras . E tenho a certeza que estes o teriam deposto a mínima ideia de autodeterminação
Armindo Matias
Parabéns por este relato de factos históricos, do nosso tempo, o qual pela forma como é descrito nos deixa na expectativa de conhecermos os próximos capítulos. Um homem a tentar evitar uma derrocada que sabia inevitável tendo pela frente um interlocutor cujo estado de espírito só podia ser: “Tirem-me deste filme”.
Maria Carmen de Oliveira Ramos
Muito obrigada Manuel Terra por esta serie de momentos que a historia nao deve esquecer…
Samuel Carvalho
Mais um texto muito interessante de Manuel Terra, que nos ajuda a compreender melhor uma das figuras mais controversas e enigmáticas da história recente de Moçambique. A narrativa prende do princípio ao fim e deixa-nos com vontade de conhecer os próximos desenvolvimentos desta verdadeira história de espionagem e intriga política.
Kanimambo Manel!
BigSlam
Mais um capítulo fascinante desta série de Manuel Terra, que nos conduz pelos bastidores de um período decisivo da história de Portugal e de Moçambique. A figura controversa e enigmática de Jorge Jardim surge, uma vez mais, envolta em diplomacia secreta, intriga política e episódios dignos de um verdadeiro filme de espionagem. Ficamos a aguardar, com muita curiosidade, a próxima parte.