A Outra Face Do Vítor Morgado
Conheci-o na Escola Industrial e no basquetebol, ambos em Lourenço Marques, éramos ainda moços.
Na Escola Industrial, embora não fôssemos da mesma turma nem fizéssemos parte do mesmo grupo de amigos mais chegados, conversámos muitas vezes nos intervalos das aulas. Desses vários contactos, ficou-me a impressão dum jovem simpático, simples, brincalhão e amigão. Nessa altura, porque eu ainda não dispusesse do “feeling” psicológico de análise das pessoas, característica que só a vida vivida confere, não notei nele a faceta pessoal que mais tarde ele veio a denotar, e que nessa altura provavelmente ainda não se manifestara.
No basquetebol, creio que por duas vezes com ele disputei jogos particulares entre alunos, no ringue da Escola Industrial. A nível federado, os jogos das camadas inferiores eram disputados ao sábado à tarde, primeiro o de juvenis, depois o de juniores e, finalmente, o de femininos. Terminado o jogo de infantis, e depois de desequipado, eu permanecia no pavilhão a assistir aos dois restantes jogos. Nas jornadas em que o seu clube (Atlético de Lourenço Marques) jogava contra o que eu representava (Sporting de Lourenço Marques), eu via-o a jogar pelos juniores. Quando ele passou a sénior, muitas vezes o vi jogar às quartas-feiras e aos sábados, à noite. A impressão com que fiquei, foi que ele não seria um craque, mas um jogador acima da média, atingindo a plenitude das suas faculdades e da carreira quando, em representação do Sporting de Lourenço Marques, ganhou todos os títulos, incluindo o de campeão nacional português (participação dos campeões da Metrópole, de Angola e de Moçambique).
Há dias, li um artigo postado numa das redes sociais, da autoria de Rui Pinto Martins, onde fiquei a conhecer aspectos da sua actividade extra basquetebol. Por me parecer de interesse e por provavelmente ser desconhecido para muitos dos que o conheceram e para muitos dos seus colegas e adversários no basquetebol, passo a transcrevê-lo:
“Rui Pinto Martins
Os Heróis Que Não Cabem na Praça – Molinhas, o País Inteiro Debaixo dos Pés
Vítor Morgado foi de um tempo que não foi meu, mas deixou dentro de mim uma herança maior do que muitos dos anos que efectivamente vivi. Carrego um orgulho profundo vindo desse lugar anterior à minha memória, como se certas histórias circulassem no sangue muito antes de alguém se sentar connosco para as contar.
É o tempo da casa de madeira e zinco do meu avô Francisco, erguida pelas suas próprias mãos em Kokoluane. O meu avô era operário dos Caminhos de Ferro de Moçambique, desses homens cuja assinatura nunca aparece nas placas inaugurais, embora tenham construído com o corpo uma parte considerável do país. Trabalhou na edificação daquilo a que hoje chamamos Estádio da Machava. Sempre que entro naquele lugar, penso que uma parte das mãos dele permanece no cimento, nos degraus e nas bancadas onde tantos foram aplaudidos sem nunca saberem o nome de quem as levantou.
O quintal do meu avô ocupa, no meu imaginário, um espaço muito maior do que o pedaço de terra em redor da casa. Os quintais daquele tempo eram salas de visita, escolas, parlamentos, pátios de música, lugares onde se discutia o mundo sem pedir autorização ao mundo. Nos quintais da Munhuana, nas ruas de Xipamanine, nas cantinas da Mafalala, nas casas de Chamanculo, nos caminhos da Malanga e em lugares como Kokoluane, preservados pela memória das famílias quando a História oficial nem sequer se deu ao trabalho de os registar, começou a formar-se uma intelectualidade brilhante, inquieta, feita da mistura de experiências e da capacidade de transformar a humilhação quotidiana em consciência.
O colonialismo construíra uma cidade para separar. De um lado, o cimento, a electricidade, os serviços, os jardins e a arrogância administrativa de quem acreditava possuir até o direito de decidir quem podia ser inteiramente humano. Do outro, a madeira, o zinco, a areia, as lagoas, os caminhos sem nome e uma população destinada a servir a cidade sem jamais lhe pertencer.
Os homens atravessavam diariamente essa fronteira. Saíam dos bairros para trabalhar no porto, nos caminhos-de-ferro, nas oficinas, nas casas dos outros, nos hotéis e nas repartições. Regressavam ao fim do dia trazendo notícias, palavras novas, jornais amarrotados, livros emprestados, músicas escutadas às escondidas, conhecimentos técnicos, pequenas revoltas, grandes humilhações e perguntas para as quais o sistema colonial não possuía resposta honesta.
A cidade conseguia separar as residências. Nunca conseguiu impedir a circulação das ideias.
Foi nesse movimento entre o caniço e o cimento, entre a obediência exigida e a dignidade recusada, que os subúrbios começaram a imaginar uma sociedade diferente. Antes de a liberdade possuir bandeira, hino ou cerimónia oficial, já caminhava pelas cantinas, pelos campos de futebol, pelas igrejas, pelos quintais e pelas conversas ditas num tom suficientemente baixo para que a polícia não escutasse e suficientemente alto para que os jovens aprendessem.
Tio Molas, Vítor, Molinhas, ou simplesmente Vítor Morgado, pertencia inteiramente a essa geografia humana.
Era o homem do basquetebol e da poesia, do campo e da conversa, do rigor desportivo e das madrugadas em que a vida se tornava maior do que a garrafa colocada sobre a mesa. Pertencia àquela geração que, muito antes de a liberdade entrar nos discursos oficiais, já pensava Moçambique e perseguia obstinadamente o seu primeiro cheiro. Uma geração que compreendeu que um povo não começa a existir apenas no momento em que declara a Independência. Começa quando aprende a olhar para si mesmo sem os olhos do dominador.
Recordo uma madrugada. A noite já nos abandonava devagar e a garrafa de whisky começava a afligir-nos com a possibilidade do fim. O Tio Molas virou-se para mim com aquele olhar sereno, quase meigo, mas dono de uma autoridade que nos fazia calar sem que precisasse de levantar a voz. Era uma educação completa, dessas que não diminuem ninguém para ensinar.
Disse:
Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens,
sobre a indiferença assassina de todos.”
Deixou alguns segundos entre nós, como se a poesia precisasse de espaço para pousar.
Noémia de Sousa, sobrinho. A poesia é determinante na vida.”
Não explicou mais. Os homens verdadeiramente cultos não transformam cada referência numa exibição pública do que sabem. Entregam-nos uma frase e confiam que, algum dia, sejamos capazes de merecê-la.
Naquela mesma madrugada, de braços abertos, quase a declamar contra o amanhecer, falou-me de Daíco, guitarrista que alguns homens daquela geração consideravam um dos maiores que Moçambique conheceu e que o país não conseguiu guardar em gravações, arquivos ou biografias dignas da sua arte. Daíco ficou na memória de quem o escutou, nos quintais onde tocou, nas palavras de Calane da Silva, na poesia de José Craveirinha e na voz de homens como o Molas, que sabiam que um país começa a morrer quando deixa desaparecer os sons que o ensinaram a reconhecer-se.
O Molas era precisamente isso: um quintal do antigo subúrbio transformado em homem. Dentro dele conviviam a guitarra, o poema, o jornal, o desporto e a conversa clandestina. Não era necessário escolher entre cultura e basquetebol, entre inteligência e força física, entre o bairro e o mundo. Tudo pertencia à mesma aprendizagem da liberdade.
Antes de se tornar treinador, dirigente e memória do basquetebol nacional, Vítor Morgado foi um jogador de enorme qualidade. Não possuía a altura que a modalidade parecia exigir, mas tinha uma impulsão que contrariava a gravidade. Saltava e, quando todos julgavam que começaria a descer, encontrava ainda uma segunda elevação, como se guardasse molas debaixo dos pés.
Ficou Molinhas.
A alcunha atravessou os campos e acabou por sobreviver ao homem.
Passou pelas equipas escolares e chegou ao Sporting Clube de Lourenço Marques, hoje Maxaquene, integrando uma das grandes gerações do basquetebol praticado em Moçambique. Jogou ao lado de Mário Albuquerque, Nelson Serra, Luís Almeida, João Romão, Belmiro Simango e outros nomes que transformaram aquela equipa numa referência do seu tempo.
Em 1971, diante do público de Lourenço Marques, integrou o Sporting que conquistou o título máximo da competição portuguesa, impondo uma formação sediada em Moçambique às melhores equipas de Portugal e Angola.
Época 1970/71 – Seniores
• Campeão Provincial Moçambique • Campeão Nacional
Em cima: John Hucks, Mário Albuquerque, Sérgio Carvalho, Luis Almeida, Carlos Serra, Victor Morgado e Luis Pina (Treinador).
Em baixo: António Mora Ramos, Fernando Fernandes, Nákios, Nelson Serra, João Romão.
Época 1970/71 – Seniores
Sporting vs Desportivo – Campeonato Nacional em Moçambique
Na foto: Luis Almeida, João Romão, Victor Morgado, Sérgio Carvalho, Nelson Serra (pelo Sporting); F6? (árbitro), F7? (árbitro); Manuel Lima, Paulo Carvalho, Fernando Alves, Nuno Narcy e Frank Martiniuk.
Voltaria a vencer em 1973, numa fase final disputada em Luanda.
Época 1972/73 – Seniores
• Campeão Distrital L. Marques • Campeão Provincial Moçambique
• Campeão Nacional
Em cima: Rui Pinheiro, Terry Jonshon, João Romão, Luís Almeida, Belmiro Simango, Victor Morgado e Mário Albuquerque.
Em baixo: João Morais, Mário Peliquito, António Ruas Alves “Tomané” e Nelson Serra.
Época 1972/73 – Seniores
(Campeonato Nacional em Luanda)
• Campeão Distrital L. Marques • Campeão Provincial Moçambique
• Campeão Nacional
Em cima: Abílio Monteiro (Seccionista), C2? (Dirigente), Belmiro Simango, Mário Albuquerque, Luís Almeida, João Romão, Flausino Machado (Presidente SCLM), Victor Morgado, Rui Pinheiro, Terry Jonshon, Nascimento (Massagista).
Em baixo: António Ruas Alves “Tomané”, Mário Peliquito, Domingos Moura (Dirigente), João Morais, Nelson Serra, Dave Adkins (Treinador).
Na memória da minha família, a vitória de 1971 não terminou no pavilhão. Contam que o Molas foi carregado aos ombros quando regressou ao subúrbio. A celebração continuou no quintal do meu avô Francisco, em Kokoluane, entre música, vozes, garrafas passadas de mão em mão e aquela alegria sem protocolo com que os bairros celebravam os seus.
Imagino-o a chegar ainda com o corpo do jogo, o suor, o cansaço e a vitória agarrada aos braços dos outros. Imagino o meu avô, operário dos CFM, a recebê-lo na casa que levantara com as próprias mãos, enquanto a madrugada crescia sobre as chapas de zinco.
Um homem que ajudara a construir uma parte material do país recebia no seu quintal outro que começava a construir uma parte da nossa memória desportiva.
A festa durou até o sol nascer.
O título conquistado dentro do sistema colonial não encerrou a história de Vítor Morgado. Foi apenas uma parte dela. Muitos atletas da sua geração partiram durante a transição política. O Molas permaneceu ligado ao basquetebol moçambicano, atravessando clubes, gerações e responsabilidades.
Trabalhou como treinador no Maxaquene, no Desportivo de Maputo, no Beira-Mar, no Ferroviário e no Costa do Sol. Passou pelas selecções nacionais, exerceu funções na Federação Moçambicana de Basquetebol e levou mais tarde o conhecimento do jogo para a Rádio Moçambique, onde também foi comentador.
A sua importância, contudo, não cabe numa lista de clubes ou títulos.
Ao lado de Belmiro Simango e Hélder Nhandamo, o Cobra, participou na construção do basquetebol do Beira-Mar, levando a modalidade aos jovens do subúrbio. O gesto contém uma dimensão que as estatísticas nunca conseguirão medir. Recebera técnica, formação e experiência num sistema profundamente desigual; em vez de conservar esse conhecimento dentro dos círculos que o haviam produzido, ajudou-o a atravessar as fronteiras sociais da cidade colonial.
Levou o cesto para o quintal.
Foi dessa transmissão silenciosa que nasceu uma parte da grande escola moçambicana de basquetebol, feita de inteligência táctica, disciplina, improvisação e capacidade de vencer adversários fisicamente superiores. O país que mais tarde se afirmou nas competições africanas não apareceu subitamente. Foi ensinado durante anos por homens que treinavam sem fortuna, muitas vezes sem condições e quase sempre sem a memória pública que mereciam.
Em 1991, Vítor Morgado integrou, como treinador adjunto de Luís Cezerilo, a equipa técnica da selecção feminina que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Africanos do Cairo. Moçambique derrotou o Senegal na final e alcançou uma das maiores vitórias da sua história desportiva.
Ano de 1991 – Seleção Feminina de Basquetebol de Moçambique
• Campeã de África
Atrás das jogadoras, das fotografias e da celebração nacional estava também o Molas, o mesmo homem que décadas antes saltava pelo Sporting de Lourenço Marques e regressava carregado aos ombros para um quintal do subúrbio.
É essa continuidade que lhe confere lugar entre os nossos heróis. Atravessou o basquetebol colonial, a transição para a Independência e a afirmação africana do desporto moçambicano. Foi atleta, treinador, formador, dirigente, comentador e, acima de tudo, transmissor.
Alguns homens vencem jogos. Outros ensinam um país a jogar.
Quando penso nele, não o vejo encerrado numa ficha biográfica. Vejo a casa de madeira e zinco do meu avô. Vejo os homens dos CFM regressando do trabalho. Vejo Daíco com uma guitarra de que já não possuímos o som. Vejo Noémia de Sousa atravessar uma madrugada pela voz de um antigo jogador de basquetebol. Vejo o subúrbio inteiro, com as suas feridas e a sua elegância, recusando a inferioridade que a cidade colonial lhe atribuía.
Vítor Morgado morreu em Lisboa, em 1 de Maio de 2013. A notícia registou o desaparecimento de um antigo jogador e treinador. A memória do país devia ter registado muito mais.
Devia ter dito que morreu um homem que transportava dentro de si uma parte da cidade que nos inventou.
As praças preferem o bronze, os discursos e os nomes que o poder aprendeu a repetir. O Molas não precisa disso para permanecer. Continua sentado no quintal do meu avô, a garrafa quase no fim, os braços abertos enquanto fala de Daíco, o olhar sereno antes de citar Noémia de Sousa.
E nós, finalmente calados, a ouvi-lo.”
Fim de transcrição.
Para mim, texto e homenagem extraordinários.
Admiro todos atletas que denotam valor e competência, qualquer que seja a modalidade. Mas mais ainda quando no atleta coexistem outros atributos.
Pierre Vilbró – Outubro 2026



2 comentários
Samuel Carvalho
Uma excelente partilha, Pierre Vilbró!
Um texto magnífico de Rui Pinto Martins, cheio de sensibilidade e emoção, que nos revela uma outra dimensão do nosso Vítor Morgado, muito para além do basquetebol.
Obrigado, Pierre, por trazeres ao BigSlam esta bonita homenagem e ajudares a preservar memórias que merecem continuar vivas!
Um grande abraço!
BigSlam
Uma homenagem sentida e merecida a Vítor Morgado, o nosso “Molinhas”, que nos revela muito mais do que o jogador e treinador de basquetebol que tantos conheceram e admiraram.
Por detrás do desportista estava um homem de cultura, de convicções, de amizade e de profunda ligação às suas raízes.
É particularmente emocionante recordar uma geração que, para além dos êxitos desportivos, ajudou a construir a identidade e a memória de Moçambique.
Porque há homens cuja grandeza não cabe nos títulos conquistados, mas permanece na vida daqueles que tocaram.
Obrigado, Pierre, por partilhares connosco esta outra face de Vítor Morgado e por ajudares a preservar memórias que não podemos deixar desaparecer!