Teatro Manuel Rodrigues de Lourenço Marques

Ano de 1954
Se existe uma sala de cinema cuja história faz parte intrínseca da minha vida, essa sala só poderá ser o Teatro Manuel Rodrigues de Lourenço Marques. Porque nasceu para o público a 5 de Maio de 1948, cinco anos antes de eu próprio ter aparecido por este mundo na Casa de Saúde da Maxaquene, cujo edifício se localiza imediatamente a seguir ao daquela sala de espectáculos. O que me leva a conjecturar que, muito provavelmente, foi das primeiras coisas que vi logo que tive capacidade para abrir os olhos. Está portanto explicada a razão pela qual me senti atraído pelo cinema desde que nasci…

Ano de 1960
Construído na Av. 24 de Julho, sensivelmente a meio do quarteirão situado entre a Av. Manuel de Arriaga e a Av. Anchieta, o Teatro Manuel Rodrigues foi uma obra levada a cabo por dois irmãos, o César e o Manuel, em homenagem ao pai, Manuel Augusto Rodrigues, falecido a 10 de Março de 1944, com 74 anos. Natural de Bragança, tinha 27 anos quando em 1897 chegou a Lourenço Marques em busca de uma vida melhor. Começou por se empregar no comércio, mas não levou muito tempo até trabalhar por conta própria. O sonho empurrava-o para grandes projectos e nos seus horizontes perfilavam-se o cinema e o teatro como os objectivos a atingir. Em 1907 inaugurou o primeiro cinema da capital moçambicana, o Salão Edison, que posteriormente, a 8 de Setembro de 1913, daria lugar ao Teatro Gil Vicente. E nem a sua destruição por um incêndio, nos princípios de 1932, conseguiria abalar a vontade férrea do transmontano, que passado apenas um ano e meio, a 8 de Agosto de 1933, estava a inaugurar nova sala, com o mesmo nome, mas noutro local – a Av. D. Luís – onde se manteve até aos dias de hoje.
Foi portanto inteiramente justa a homenagem que os filhos fizeram à sua memória quando criaram o Teatro Manuel Rodrigues e, já nos anos 60, o cinema Infante na Av. Pinheiro Chagas. Concebido com fascinante modernidade para a época, o Teatro Manuel Rodrigues tornou-se rapidamente na melhor sala de espectáculos da capital moçambicana. Além de ser a maior de todas (com capacidade para 1500 espectadores, distribuídos por uma plateia e balcão contíguos) a sala ficou famosa pela sua programação, uma vez que era nela que se estreavam os melhores filmes que as sucessivas décadas foram levando ao conhecimento dos espectadores laurentinos. Não me lembro já qual o primeiro filme que lá me levou, mas tinha 10 anos quando vi o “Tômbola”, com a Marisol, nos finais de Fevereiro de 1964.
A actriz espanhola, então com 16 anos acabados de fazer (curiosamente a mesma idade do Teatro Manuel Rodrigues), deslocou-se a Lourenço Marques para apresentar o filme (tenho ainda o postal por ela autografado), tendo estado presente na estreia.
Ao longo dos anos contam-se por muitas dezenas os filmes que me conseguiram encantar naquela magnífica sala. Recordo, por exemplo,“Summer Holiday”, “A Hard Day’s Night”, “A Man For All Seasons”, “Vivre Pour Vivre”, “Rosemary’s Baby”, “Love Story”, “La Dolce Vita”, “The Servant”, “Fiddler on the Roof”, “The Last Picture Show”, “The Godfather”, “Friends”, “The Man From Mancha”, “L’Aventure C’est L’Aventure”, “Jesus Christ Superstar”.
Outra das particularidades do Teatro Manuel Rodrigues era o facto de ser a única sala equipada com um écran onde podiam passar os filmes rodados em 70 mm (e com um som de 6 bandas estereofónicas), formato que nas décadas de 60 e 70 me permitiu ver em écran gigante obras como “Grand Prix”, “Is Paris Burning?”, “The Dirty Dozen”, “2001: A Space Odyssey”, “Gone With The Wind”, “The Lion in Winter”, “West Side Story” ou “Goodbye Mr. Chips”.
Disse acima que não me lembro do primeiro filme que vi no Teatro Manuel Rodrigues e é verdade, pois teria os meus 5 ou 6 anos. Mas forçosamente sei qual foi o último: “Lady Caroline Lamb”, uma fita sem grande interesse com a Sarah Miles. Foi numa matiné de domingo, no dia 24 de Novembro de 1974. Algum tempo depois era chegada a hora de fazer as malas e rumar em definitivo a Portugal Continental. Também já depois do 25 de Abril de 74, mas nos princípios de Setembro, lembro-me ainda do grande acontecimento que foi a estreia do proibidissimo “Último Tango em Paris”.
Foram semanas sucessivas de lotações esgotadas, com filas de milhares de pessoas a darem a volta à esquina com a Av. Manuel de Arriaga e a prolongarem-se por muitas centenas de metros em direcção à Av. Pinheiro Chagas – uma autêntica loucura.
Loucura foi também o que se viveu no Teatro Manuel Rodrigues quando o Conjunto Académico João Paulo se deslocou pela primeira vez a Moçambique, tendo iniciado uma digressão – chamada “Show 70” – na capital, em Outubro de 1969. Também guardo ainda o postal assinado por todos os membros do grupo no fim do espectáculo.
Muitos outros nomes da música, do teatro e do ballet passaram por aquele teatro: Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro, conjuntos moçambicanos como os Corsários
ou Renato Silva, Madalena Iglésias,

1964 – Conjunto Renato Silva e Madalena Iglésias
Companhia de Vasco Morgado, o Ballet “Pact” da África do Sul ou a Escola de Lubélia Stichini, a que pertencia a que é hoje minha mulher e que aos 6 anos pisava pela primeira vez um palco.

1965 – Lubélia Stichini e Isabel Fernandes
Anexo ao teatro funcionava o Café Manuel Rodrigues, famoso por ser o primeiro café em Moçambique a ter uma máquina de tirar bicas “cimbalino”, as quais faziam parte do ritual de uma ida ao cinema. Tanto quanto sei ambos os locais se mantêm ainda activos. Em Dezembro de 1991, quando voltei de férias à minha cidade, tive forçosamente de voltar ao Teatro Manuel Rodrigues, então já chamado Cine-África.

1991 – Cine África
Aconteceu numa tarde solarenta, a uma hora em que não havia sessão e por isso as portas estavam fechadas. Mas a simpatia dos moçambicanos continuava a mesma de sempre – logo que o funcionário que por lá se encontrava se apercebeu do motivo da minha visita, abriu-me as portas da sala e, pela primeira vez na vida, tive todo aquele espaço só para mim.

Bilheteira

Escadas principais de acesso à plateia

Escadas principais de acesso à plateia

Escadas de acesso ao balcão

Plateia do teatro

Lateral do balcão, vendo-se ao fundo as imagens em relevo art deco
Sentei-me na última fila do balcão, nos lugares que costumavam ser cativos dos meus pais sempre que um filme se estreava no Teatro Manuel Rodrigues. E filmei, em lenta panorâmica, todo o interior da sala, enquanto mil recordações me assaltavam o espírito. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida.
Fonte: ratocine.blogspot.pt
4 Comentários
Xico Meirelles
Saudades… vi muitos filmes no Manuel Rodrigues, inclusivo Space Odissey 2001 do Stanley Kulbrick. Também ballet e concertos. Obrigado pelo artigo.
Ana Paula Figueiredo
Saudades…sobretudo, dos recitais de ballet, pois andei na escola de dança Lubelia Stichini e fizemos lá espetáculos 😩 nostalgia, mas memórias inesquecíveis 😍
Humberto Tercitano
Realmente essa sala é nostalgica para quem viveu as epopeias Laurentinas.
Entre as observacoes acima comentadas devo dizer que tambem fui um frequentador de muitos filmes que marcaram a epoca. Lembro me das cowboiadas com o Giuliano Gemma, mais tarde Montgomery Wood, as series do Trinita, do Cantiflas, do Louis de Funes, os filmes Chiq Chiq Bang Bang, Herbi, E Tudo o Vento Levou, entre tantos outros. Mas o que mais me marcou pela espectacularidade do som estereofonico foi o filme Jesus Crist Superstar. Sendo um filme adaptado de uma peca teatral o efeito stereofonico foi por demais preponderante.
Francisco Velasco
Uma pequena achega para este artigo que nos traz imensas saudades de um Teatro que se tornou um marco inesquecível das obras realizadas na capital, ao tempo das mais bonitas e modernas de África.
Trata-se da visita da orquestra americana de Jazz, de ERBIE MANN que introduziu a flauta num conjunto típico de saxofones, trompetes, clarinetes, etc, que durante duas horas regalou uma audiência totalmente hipnotizada. Ainda hoje sinto arrepios ao lembrar-me desse espectáculo e dos aplausos intermináveis com que o público, lhes rendeu, de pé.