Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo
(3ª parte)

Imagem do Observador
Concluída a operação de libertação dos soldados portugueses aprisionados na Índia, Jorge Jardim, que possuía já conhecimentos específicos da região devido a averiguações ali realizadas em 1954, quando fora incumbido de apurar o descontentamento das autoridades indianas relativamente à presença portuguesa em Goa, preparou-se para cumprir um pedido muito especial que lhe fora confidenciado por Adriano Moreira.

Adriano Moreira, amigo íntimo de Jorge Jardim, e que pediu o resgate do Quadro de Afonso de Albuquerque.
A missão consistia em trazer para Lisboa o quadro-retrato de um dos vice-reis mais importantes da região, Afonso de Albuquerque, que se encontrava exposto no Palácio de Hidalcão.

Quadro de Afonso de Albuquerque, pedido por Adriano Moreira.
Quando entrava neste tipo de operações, Jorge Jardim não dispensava indumentárias locais. Usava o tradicional chapéu cinzento e bicudo, um pingalim e óculos escuros, compondo um rosto esguio e amorenado, talvez marcado pelo sol abrasador do Dondo.
Para estes momentos de ação levava consigo, de forma disfarçada, uma caneta balística, uma mini máquina fotográfica Minox B, muito utilizada por célebres espiões e uma pasta diplomática equipada com detetores capazes de sinalizar uma carta armadilhada. Usava ainda os nomes dos filhos para transmitir mensagens codificadas e trazia sempre comprimidos de cianeto para qualquer eventualidade inesperada.
De forma hábil, Jorge Jardim foi mantendo contactos e misturando-se com a elite local. Aproveitou a desorganização existente resultante do período de transição política e é quase certo que a operação tenha contado com a colaboração de terceiros, provavelmente funcionários locais ou mesmo militares indianos que pudessem ser subornados ou simplesmente fechar os olhos.
O seu historial operacional sugere que tinha acesso a fundos que lhe permitiam facilitar muitas destas ações.
Curiosamente, esta missão teve um percalço, não ao nível da operação, mas sim do objetivo. Na verdade, o retrato que chegou a Lisboa era o de D. João de Castro,

D. João de Castro, Governador e Vice-Rei da Índia, séc. XVI
quadro que viria mais tarde a ser devolvido à Índia por Mário Soares.
Já no Dondo, Jorge Jardim tomou conhecimento do engano e da consequente deceção de Adriano Moreira. Contudo, o agente português não se deu por vencido e decidiu fazer nova incursão a Goa, desta vez com o firme propósito de resgatar o verdadeiro quadro de Afonso de Albuquerque.
Tratava-se, sem dúvida, de uma missão com maior grau de risco. Jorge Jardim era agora um homem “marcado” e o espaço encontrava-se muito mais vigiado.
Para esta nova operação montou um plano assente em três pilares fundamentais: disfarce, corrupção e uma rota de fuga estratégica.
Utilizou uma identidade falsa através de um passaporte estrangeiro e apresentava-se como um homem de negócios ou turista interessado em arte, o que lhe permitia circular com relativa liberdade sem levantar suspeitas imediatas.
Com o quadro finalmente localizado, contou com a indiferença dos guardas do salão, possivelmente bem recompensados, retirando rapidamente a tela da enorme moldura e colocando-a numa caixa registada como material de escritório.

Palácio de Hidalcão Panjim, de onde foi retirado o quadro.
Com auxílio exterior conseguiu transportar clandestinamente o quadro de Goa até ao Paquistão, alegadamente num pequeno barco de pesca que atravessou a fronteira marítima.
Chegado a Carachi, o retrato de Afonso de Albuquerque foi entregue às autoridades portuguesas e posteriormente enviado para Lisboa, chegando finalmente às mãos de Adriano Moreira. Missão cumprida.
De regresso a Moçambique, Jorge Jardim começou a preparar-se para a inevitabilidade da guerrilha nacionalista conduzida pela FRELIMO, que começava a organizar as suas bases a partir da Tanzânia, com fortes probabilidades de se expandirem para territórios vizinhos.

A base da FRELIMO em Bagamoyo – Tanzânia
Concentrou então a sua atenção na Niassalândia, território que após a independência passaria a designar-se Malawi, cuja geografia penetrava profundamente ao longo da costa moçambicana.
Foi ali que conheceu Pombeiro de Sousa, cidadão português que se fixara em Blantyre em 1946 e que, a conselho de Jorge Jardim, viria a ser credenciado pelo governo português como cônsul nacional no Malawi.
Continuando a desenvolver o seu papel de comerciante, coube-lhe também fornecer todo o mobiliário para a residência do médico Hastings Banda.
A 6 de julho de 1964, é proclamada a independência do Estado do Malawi, num evento que contou com forte presença de individualidades portuguesas.
Dois meses antes, o Dr. Hastings Banda fora recebido em clima de festa em Nacala e Nampula, praticamente como um chefe de Estado antecipado.

Banho de multidão no Aeroporto de Nampula à chegada do Presidente do Malawi, no dia 27 de Setembro de 1971.
Jorge Jardim entrou então novamente em ação, enviando para o Malawi costureiras da cidade da Beira para ajudar nos preparativos da cerimónia de independência.
Graças à empatia que se ia fortalecendo entre ambos, Jorge Jardim e Hastings Banda acabaram por fundar conjuntamente a Oil Company of Malawi, sendo pouco depois o agente português nomeado cônsul do Malawi na cidade da Beira.
Conhecedor profundo das fragilidades fronteiriças da região, Jorge Jardim sabia que o território poderia tornar-se um ponto de infiltração da FRELIMO.
Sabia também que o Presidente Banda temia revoltas internas e conspirações de ministros dissidentes logo após a independência, necessitando de armamento fiável para a sua guarda pessoal, armamento esse que não estivesse sob controlo britânico.
Em 1965, Jorge Jardim conhece o português Orlando Cristina,

Orlando Cristina
caçador de elefantes que falava várias línguas nativas e que se relacionava com as filhas dos régulos locais. Era o homem ideal para uma missão delicada.
Rapidamente Orlando Cristina partiu para Dar es Salam, apresentando-se à cúpula da FRELIMO como desertor, tentando assim recolher informações estratégicas de grande importância.
A sua missão, no entanto, não passou despercebida à PIDE, que começou a desconfiar da autenticidade da sua versão e acabou por detê-lo.
Provavelmente graças à intervenção discreta de Jorge Jardim, Orlando Cristina conseguiu fugir clandestinamente da prisão e refugiar-se no Malawi.
Entretanto, Jorge Jardim avaliava também a situação estratégica da ilha de Likoma, situada no Lago Niassa e dividida entre Moçambique e a então Niassalândia pela linha média das águas.

Lago Niassa, que dava acesso à Ilha Likoma, onde esteve Jorge Jardim.
A ilha, habitada por comunidades ajuás-nynjas, era pobre e pouco produtiva, vivendo sobretudo da pesca. Apenas uma vez por mês chegavam embarcações com produtos essenciais vindos de N’Kota Kota, a cerca de 40 quilómetros.
A FRELIMO chegou a utilizar a ilha como posto de vigilância das lanchas da marinha portuguesa, colocando Hastings Banda numa posição delicada perante Portugal.
O objetivo de Jorge Jardim era então claro: realizar uma “purga” silenciosa, sem recurso à violência, conquistando a população local através de ajuda e generosidade.
Sabendo que existia em Likoma uma pista de aterragem rudimentar, decidiu utilizar um pequeno avião Cessna 401. Prevendo dificuldades ou mesmo uma emboscada, transportava consigo uma mini-mota elétrica desmontável.
No avião seguiram também mantimentos, ferramentas, capas de chuva para pescadores, capulanas coloridas, caixas de cerveja, latas de Coca-Cola, rádios e pilhas.
Após uma escala em Vila Cabral, onde foi recebido pelo governador distrital coronel Nuno Melo Egídio, conseguiu ainda vários garrafões de vinho. Aproveitou também para pedir ao bispo D. Eurico Dias Nogueira algumas garrafas de vinho de missa para oferecer ao padre anglicano M’zeca.
De volta a Likoma,

Jorge Jardim montou a mini-mota e dirigiu-se rapidamente ao povoado para encontrar o padre.
Enquanto decorriam as conversas, iniciava-se a distribuição de alimentos e guloseimas às crianças. Pouco depois, Jorge Jardim convidava o padre M’zeca a entrar no avião, oferecendo-lhe o vinho com grande cordialidade.
O padre chamou então alguns homens da aldeia para descarregarem as mercadorias, que foram levadas para a casa do chefe da comunidade.
Seguiram-se gritos de alegria e vivas aos visitantes.
Como gesto de amizade, Jorge Jardim levou posteriormente o padre M’zeca à cidade da Beira, onde recebeu tratamento médico e substituiu os velhos óculos colados por novos e ajustados.
Com esta operação, evitou-se um confronto armado e demonstrou-se que era possível conquistar “as bocas e os corações” da população local.
Orlando Cristina, por sua vez, viria a tornar-se uma peça fundamental no regime de Hastings Banda, treinando militarmente a elite paramilitar do Malawi Young Pioneers.

Malawi Young Pioneers.
Para reforçar ainda mais as forças de segurança do Malawi, Jorge Jardim solicitou ao comandante militar da Beira, capitão Pezarat Correia, o envio de material de guerra que atravessou a fronteira por via terrestre.

Capitão Pezarat Correia
Em troca, Hastings Banda passou a permitir que as tropas portuguesas utilizassem o território do Malawi para operações destinadas a travar ataques da FRELIMO, garantindo também a segurança das linhas ferroviárias que ligavam o país ao Porto da Beira.
- No próximo texto (4ª parte) abordaremos a viagem relâmpago e secreta de Jorge Jardim à Zâmbia, onde, com recomendação de Hastings Banda, protagonizou um encontro que se revelou quase uma ação diplomática, realizada curiosamente, à revelia de Salazar.
Manuel Terra – Abril de 2026




5 Comentários
2luisbatalau@gmail.com
CHOANA. REPORTAGEM EXCELENTE SOBRE ALGUÉM QUE SÓ CONHECI DE NOME. KANIMAMBO. HAMBANINE
Fernanda
Figura que, de facto, faz lembrar o 007 do cinema! Grandes e perigosas aventuras, normalmente bem sucedidas! Obrigada pela partilha!
Fernanda
Figura que, de facto, faz lembrar o 007 do cinema! Grandes e perigosas aventuras, normalmente bem sucedidas! Obrigada pela partilha!
Samuel Carvalho
Excelente artigo, mais um retrato fascinante de uma figura tão complexa quanto enigmática como Jorge Jardim.
A forma como Manuel Terra nos conduz por estes episódios, quase dignos de um verdadeiro romance de espionagem, prende o leitor do início ao fim e dá-nos uma perspetiva muito viva de uma época marcada por decisões ousadas e contextos históricos intensos.
Parabéns por mais esta partilha que enriquece a memória coletiva e mantém bem vivo o espírito do BigSlam como verdadeiro “Ponto de Encontro” das nossas histórias e vivências.
BigSlam
Excelente retrato de Jorge Jardim, cheio de episódios intensos e quase cinematográficos, é um verdadeiro convite à leitura e à reflexão sobre tempos e contextos que não podem ser esquecidos.