Uma Morte Anunciada, em Moçambique

Moçambique daquele tempo tinha muitas escolas de prestígio. Prestígio obtido principalmente pela qualidade do ensino ministrado, pela competência dos professores e pela qualidade das instalações.
Uma dessas escolas foi frequentada por muitos dos seguidores e por muitos dos colaboradores de BigSlam. Estou-me a referir à Escola Industrial de Lourenço Marques ou Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque.
A Escola ministrava diversos cursos, em regimes diurno e nocturno, e os alunos saíam para a vida activa com a devida preparação e com garantia de emprego. Inseriam-se, assim, nos vários ramos da actividade económica, com contributo assinalável no desenvolvimento de Moçambique.
Esta Escola, como muitas outras, fazia falta a Moçambique. Mas eis que informações vindas de Moçambique, anunciam a sua morte. Os altos decisores moçambicanos pretendem para o seu lugar a Escola Superior de Jornalismo.
Sobre esta morte anunciada, chegou ao meu conhecimento um texto da autoria do moçambicano Alvim Cossa, que passo a transcrever:
“A MORTE ANUNCIADA DA ESCOLA INDUSTRIAL
A Morte anunciada da Escola Industrial. Sim, aquela mesma, plantada em 1963, no fervilhar do colonialismo, na actual esquina das avenidas Vladimir Lenine e 24 de Julho, no coração estressado da Cidade de Maputo, onde o trânsito grita, os vendedores insistem em te impingir bugigangas chinesas de utilidade duvidosa e a história, pelos vistos, já não tem quem a defenda.
Morreu. E não foi de mal súbito. Foi uma morte lenta, burocrática, assinada com canetas elegantes e justificada com discursos cheios de “modernização”, “requalificação” e outras palavras bonitas que, na prática, significam: “já não precisamos disto”. A Escola Industrial, aquela que formava mãos, não apenas bocas. Aquela onde se aprendia a fazer, a construir, a reparar, a transformar. Aquela onde o saber tinha cheiro de óleo, som de martelo e dignidade de suor. Essa mesma foi declarada obsoleta. Afinal, quem precisa de técnicos quando se pode ter mais “quadros” a comentar nas TV’s a realidade que ninguém mais sabe resolver?
No seu lugar, ergue-se agora uma Escola Superior de Jornalismo. Porque claramente o problema de Moçambique, segundo estudos aprofundados de meia dúzia de duvidosos estudiosos, é a falta de quem escreva com propriedade epistemológica sobre os problemas da nação que tem tudo para dar certo. Não é e nunca foi a falta de quem com conhecimento técnico, próprio de quem aprendeu a fazer, os resolver. Mas não faz mal. Vamos todos aprender a narrar o colapso com boa gramática, excelente dicção e, quem sabe, até com transmissão em directo.
Definitivamente, Moçambique já tomou a sua decisão própria, como alguém sugeriu, não faz muito tempo, o ensino técnico-profissional é um luxo dispensável. Para quê formar electricistas, mecânicos, serralheiros, carpinteiros, quando podemos importar tudo, desde a lâmpada até ao técnico que a instala? O futuro é claro, terceirizamos a técnica, exportamos a responsabilidade e ficamos cá, orgulhosamente dependentes.
E o povo? Ah, o povo adapta-se. Sempre se adapta. Agora, mais do que nunca, será incentivado ao empreendedorismo criativo, comprar, vender e revender. Um país inteiro transformado num grande mercado informal, onde o talento já não se mede pela capacidade de produzir, mas pela habilidade de negociar. E, claro, não podemos esquecer o florescente sector dos produtos milagrosos, aqueles que prometem resolver tudo o que o sistema já não resolve, desde a pobreza até à performance na cama.
É isto. Batemos no fundo do poço. E, como bons cronistas da própria desgraça, talvez até possamos descrevê-lo com beleza literária. Mas não deixa de ser o fundo. O mais curioso é que ninguém parece escandalizado. Talvez porque a morte da Escola Industrial não seja apenas o fim de uma instituição. É o sintoma de algo maior, o abandono silencioso da ideia de um país que constrói, que produz, que forma. Estamos, lentamente, a deixar de ser uma nação de fazedores para nos tornarmos uma nação de comentadores. E, convenhamos, comentar não exige oficina, nem ferramentas, apenas opinião e, de preferência, uma boa ligação à internet.
Aviso de mau tempo à navegação, disseram. Mas já não há marinheiros. Só analistas do naufrágio.
Alvim Cossa – Actor, Poeta e Coringa”
Fim da transcrição.
Como um dos alunos que teve o orgulho de ter passado por aquela Escola, é com imensa tristeza que recebi esta notícia.
Pierre Vilbró – Abril 2026

- Para recordar, aqui ficam alguns dos corpos docente e administrativo da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, referentes às décadas de 60 e 70.
Uma pequena homenagem a todos aqueles que, com dedicação e saber, contribuíram para a formação de várias gerações de alunos.





6 Comentários
Abreu Vicente Vicente
Também sou antigo aluno da EIMA e fiz o curso de construção civil onde tive como mestres de carpintaria Augusto Portela e Fernando Rodrigues, de 1970 a 1975.
2luisbatalau@gmail.com
UMA AUTENTICA VERGONHA. POR ESTAS E OUTRAS É QUE MOÇAMBIQUE É UM DOS SETE PAÍSES MAIS POBRES DO MUNDO. É UM COVIL DE CORRUPTOS. LAMENTO!
José Fonseca
Saudades da minha escola andei no curso de físico -quimica, depois fui trabalhar para farmácia, que foi a farmácia Colonial na baixa na consiglieri Pedroso.
José fonsevca
Saudades da minha escola andei no curso de físico -quimica, depois fui trabalhar para farmácia, que foi a farmácia Colonial na baixa na consiglieri Pedroso.
Samuel Carvalho
Como antigo aluno da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque (EIMA), nos anos 60/70, custa sempre recordar que uma instituição que formou tantas gerações de bons técnicos e profissionais deixou de existir. Foi uma escola de grande prestígio, onde muitos jovens aprenderam uma profissão e ganharam bases sólidas para a vida.
Guardo também gratas recordações dos professores que lá lecionaram, verdadeiros mestres que, com dedicação e exigência, nos transmitiram conhecimentos e valores que nunca esquecemos.
A sua substituição pela Escola Superior de Jornalismo pode ter tido as suas razões, mas Moçambique ficou certamente mais pobre sem uma escola técnica com a dimensão e a importância que a Escola Industrial de Maputo teve durante tantos anos. Para quem lá estudou, ficam as memórias de uma casa que marcou profundamente o nosso percurso e que tanta falta continua a fazer ao país.
BigSlam
A antiga Escola Industrial (EIMA), hoje 1º de Maio marcou gerações e teve um papel fundamental na formação técnica de muitos jovens em Moçambique. Foi ali que se prepararam profissionais que contribuíram para o desenvolvimento do país em várias áreas. A sua substituição pela Escola Superior de Jornalismo representa uma mudança de rumo que, para muitos, deixou uma lacuna importante na formação técnica, tão necessária para o progresso de qualquer nação. Recordar a importância desta escola é também lembrar o valor que o ensino técnico teve, e continua a ter, para o futuro de Moçambique.