NÓS, OS MOÇAMBICANOS
Por Mário Silva
Os laços que unem um grupo de verdadeiros amigos são como as raízes profundas das velhas árvores de uma floresta: resistem ao tempo, à distância e até à própria ausência física.
Esta é a história de um grupo de grandes amigos moçambicanos. É a nossa história. Há exatamente meio século, fomos obrigados a cruzar o oceano, trazendo na bagagem o cheiro da terra vermelha, o calor de Lourenço Marques, da Beira ou de Nampula e uma cumplicidade inabalável que nem a mudança para Portugal conseguiu apagar.
Com raízes em diferentes clubes de Moçambique, nunca permitimos que as rivalidades desportivas fossem obstáculo à amizade. Pelo contrário, aprendemos desde cedo que o respeito, a camaradagem e os valores humanos estavam acima de qualquer resultado dentro de campo.
Chegar a um novo país, há cinquenta anos, foi um enorme desafio. Mas, em vez de nos dispersar, essa realidade uniu-nos ainda mais. A distância da nossa terra funcionou como um íman. Longe do Índico, encontrámos uns nos outros o porto seguro, o sotaque familiar, as memórias partilhadas da infância e o apoio necessário para construir novas vidas.
O companheirismo que nasceu nos quintais, nas escolas, nos clubes e nas praias de Moçambique não só resistiu à mudança como se fortaleceu em solo português de forma exemplar.
Ao longo destas cinco décadas, mantivemos a tradição sagrada de nos encontrarmos. Esses encontros transformaram-se em verdadeiros rituais de celebração da vida, momentos em que o tempo parece parar. À volta da mesa, entre sabores que evocam as nossas origens e conversas que misturam passado e presente, a gargalhada continua a ser a mesma da juventude.
Merecem destaque especial os tradicionais almoços anuais do Desportivo, realizados há mais de quarenta anos e hoje alargados a todos os moçambicanos. São momentos únicos em que celebramos as conquistas de cada um, partilhamos alegrias e tristezas e renovamos os laços de uma amizade construída ao longo de toda uma vida.
Outra referência incontornável desta união moçambicana tem sido o extraordinário trabalho desenvolvido por Samuel Carvalho através do BigSlam, um projeto que superou todas as expectativas e que se tornou um ponto de encontro privilegiado para preservar memórias, fortalecer amizades e manter viva a ligação à nossa terra.
Hoje, a mesa está fisicamente mais vazia, mas a alma do grupo permanece intacta. Alguns destes grandes amigos já partiram, deixando uma saudade imensa e um silêncio que por vezes dói. Porém, a morte não tem força suficiente para quebrar aquilo que foi construído com tanta verdade. Nos brindes que fazemos, nas histórias que contamos e nas recordações que partilhamos, eles continuam presentes, vivos na memória e no coração daqueles que permanecem.
Cinquenta anos depois de deixarmos Moçambique, somos a prova viva de que a verdadeira amizade não conhece fronteiras, não se desgasta com o passar dos anos e não termina com a partida de alguém. Somos um raro exemplo de lealdade e companheirismo, uma demonstração de que os laços criados na juventude podem durar uma vida inteira e ecoar para além dela.
Nós, os Moçambicanos.

Mário Silva – Junho de 2026



21 Comentários
Paulo Carvalho
O Marito, quem fez esta publicação, tem sido juntamente com o Zé Pedro F. Cardoso, os grandes dinamizadores destes eventos. Ambos, muito deram ao Desportivo, no período anterior à Independência de Moçambique e agora, continuam de forma diferente, a trabalhar para manter viva a amizade, entre os laurentinos e não só, especialmente, daqueles que estavam ligados ao desporto de Moçambique quer tenham pertencido ou não, ao saudoso e popular, clube alvi-negro.
Estou certo que ficaremos felizes com a presença de todos os que quiserem juntar-se-nos no próximo Almoço anual, que está previsto realizar-se no dia 10 de Outubro.
agostgomes.1950@gmail.com
Gostei da narrarativa, como é bom fazerem estes convívios, encontrarem velhas amizades, manter os amigos, matar saúdades da nossa infância e convivência
Abra a todos os Moçambicanos
Grato ao big slam
Paulo
Estes convívios estão abertos a todas as pessoas que queiram neles participar. O próximo, realizar-se-á, no dia 10 de Outubro.
Maria João Necho
Ainda bem que se reunem-(Nunca fui desportista.)Porque nós os Moçambicanos ,somos imbativeis,Diferentes,Eternos…sempre com a saudade no coração,da terra vermelha, do cheiro da terra depois de chover,das trovoadas diferentes,do Mar,do céu azul.da praia,das minhas colegas de escola,liceu e universidade que se foram perdendo ao longo dos anos.Uns foram para o brasi,.America ,outros para a Africa do sul,e os que viemos para Portugal continental ,também não é facil encontrar-nos.Sou de L.M. e tenho muitas saudades.
Manuel Martins Terra
Um belo texto, que sublinha as velhas amizades, grandes tesouros que guardamos conosco, que encerram dentro de si valores que no mundo atual já não se vê. Ontem em Moçambique, hoje em Portugal e dispersos pelos quatro cantos do planeta, continuam unidos e a mostrarem que as velhas e sólidas amizades, são o reflexo de quem realmente somos.Parabéns a todos, e mantemham-se assim.
2luisbatalau@gmail.com
ESTES MARAVILHOSOS CONVÍVIOS SÃO SEMPRE MUITO BONS. A FALTA DE SAÚDE NÃO ME TEM PERMITIDO CONVIVER E ESTAR COM A MALTA DE MOÇAMBIQUE. KANIMAMBO
Orlando Valente
Gostei IMENSO desta reportagem que o BigSlam nos abrilhantou, focando as fortes amizades dos Mocambicanos que ate hoje e ja passados mais de meio seculo, nos continua a unit. Eu como Mocambicano, embora nao fosse um desportista na nossa terra e que o BigSlam salienta com muito orgulho,tenho dado o meu contributo, com os meus poemas dedicados a nossa terra, muito embora nao seja um profissional na materia, tenho e de coracao, contribuìdo e muito me orgulho de ve-Los publicados no BigSlam, ao mesmo tempo que agradeco ao seu director Samuel Carvalho de os publicar. Assim e aoroveitando este momento, desejo a todos os nossos conterraneos muita saude, bem como aos VOSSOS familiares. Que DEUS ABENCOE A TODOS.
Antonio Soeiro
Excelente artigo do Mário Silva sobre nós Moçambicanos e a amizade que nos une e que para sempre em nós permanecerá!!!
Victor Manuel Quaresma
Aquele Abraço fraterno a tod@s vós, nós que tudo fazemos para nos manter unidos naquele Amizade sã tão nossa. Abraço
NINO UGHETTO
Parabens “Super artigo”. Sim somos Moçambicanos até à morte… Mas… o que resta hoje do NOSSO L.Marques ? Faazemos j almoços festas etc.. mas tudo isso, nào muda a minha raiva e tristeza..Certo sou e serei sempre Moçambicano mas nà estou na MINHA terra;; Lutei por ela e perdi.. issoo é a realidade e aqui estou ,no estrangeiro, ouvindo poesias e cantos de Moçambique e L.Marque … o que me resta???Sim somos um povo de trabalhadores, que mesmo deitados como refugiados ou emigrantes somos e os “Coca colas” de sempre..Lutamos e se hoje estamos de pé ! é poorque nào baichamos os braços… Certo que TUDO, tudo perdi… mesmo 1 centavo nào tinha, Felizmente que tive o apoio mural de minha querida Màe e o suport corajoso de meu amado Pai ..Somos Moçambicanos até ao ultimo.. e ,e depois havera so a historia do passado…
LUIS JACINTO PEREIRA
Obrigado meu velho amigo Mário Silva. Totalmente de acordo com o que dizes. Eu nunca participei nesses almoços, pois como disse, um dia, ao Mário não joguei no GDLM, mas apenas bati umas bolas (mal batidas), durante uma época (1963) nos juniores no basquetebol do SCLM, em que o treinador foi o Senhor José Lopes. Mas este ano espero em Outubro ir ao convívio onde habitualmente vão/íam o Paulo de Carvalho, o meu ex-colega da ECLM José Pedro Flores Cardoso, o Saguim, O Casquinha, os saudosos Fernando Picão, Artur Gama da Fonseca, (meu colega da Krueger).
Um abraço e em princípio até Outubro,
Luís JACINTO Pereira
Maria do Céu Pires Cruz Bastos
Mário Silva nunca nos podemos esquecer de que somos moçambicanos mesmo estando longe de Moçambique Abraço a todos os intervenientes neste projecto.
Jose Cardoso
Silva, não posso ficar indiferente a esta obra de arte dum Moçambicano de alma e coração. É bom demais, reconfortante e demonstrativo do que é realmente a Amizade genuína, pura, sem vaidades ou racismos.
Tentamos também contribuir para que assim perdure o encontro anual dos ” velhos” moçambicanos alvi negros, bem como dos n/ rivais apenas no campo.
Bem hajas e que este teu artigo seja lido e reconhecido pelos verdadeitos naturais e todos aqueles que bebendo a água do Umbeluzi, adoptaram como sua a TERRA DE TODOS NÓS. MOÇAMBIQUE.
Um abração apertado
Zé Pedro
antonio Ughetto
Tudo que venha de e sobre Moçambique interessa-me pois minha família antecedentes e descendentes somos quase todos de Moçambique
antonio ughetto
esquecia-me até os meus amigos são Moçambicanos
João Santos Costa
É mesmo isto Marito. É pena o grupo estar a ficar reduzido.
Parabéns pelo teu artigo.
Dulce Gouveia
Belo artigo, parabéns Marito!
Lourdes Carreira
Sem dúvida nada como um convivio pará manter boas recordacoes e amizades.
fer.martins@live.com.pt
Eh Pá !!! !!!
O Sport Lourenço Marques e Benfica, não tem aqui espaço.
Um Abraço a Todos. Força estamos juntos.
Samuel Carvalho
É com enorme satisfação que vejo iniciativas como esta, que mantêm vivos os laços de amizade e o espírito de união entre os moçambicanos. Encontros desta natureza são a prova de que as memórias, os valores e as amizades construídas em Moçambique continuam bem presentes no coração de todos nós. Parabéns ao Mário Silva por este belo testemunho e a todos os que ajudam a preservar esta herança tão especial.
BigSlam
Um convívio que retrata na perfeição o espírito de amizade, união e saudade que continua a ligar tantos moçambicanos. Mais do que um simples encontro, é a celebração de uma história comum, de memórias partilhadas e de laços que o tempo e a distância nunca conseguiram quebrar. Parabéns a todos os que mantêm viva esta bonita tradição!