Porque nunca mais voltei à cidade aonde já fui feliz?
Este artigo é para esclarecer os meus amigos, e não só, que me têm perguntado porque nunca mais visitei a cidade onde já fui feliz.
Segui o que Rui Veloso diz na cancão: “As regras de Sensatez”.
Como o passado nunca mais pode ser recriado o que ia encontrar era diferente! Em alguns locais as circunstâncias mudaram e já não são iguais ao original. E isso ia apagar as recordações que ainda mantenho vivas.

A cidade chamava-se Lourenço Marques!
Tinha locais e monumentos que, pela sua beleza e fascínio eram, para mim, comparáveis aos de outras grandes cidades e capitais.
Recordo com saudade o simbolismo e o encanto do monumento aos combatentes da Grande Guerra, assim como a beleza da fachada da estação ferroviária, muito bem enquadrados na movimentada praça Mac Mahon onde estão implantados. E comparáveis aos da majestosa “sala de visitas de Paris”. A praça da Concórdia.
A “velha” avenida Pinheiro Chagas com o seu traçado, movimento, comércio e edifícios bem cuidados era, para mim, comparável à 5.ª Avenida, em Nova Iorque.
A “nova avenida” que ia encontrar tem alguns edifícios e passeios malcuidados com falta de asseio e reabilitação. E por isso perdeu o encanto de outrora.
Até a “baixa” que visitava diariamente. Sempre muito limpa e asseada, com muita circulação de automóveis, pessoas e grande afluência comercial. O seu movimento era “cópia” das cidades dos países desenvolvidos.
Esse ambiente mudou!
Muitas lojas de comércio fecharam com construções novas ou mudaram de ramo. Alguns prédios estão mal cuidados sem manutenção e as pessoas com quem me ia cruzar já não são as mesmas! Portanto não ia encontrar a “baixa” que conheci.
Tal como outras grandes cidades, também tinha pontos de preferência para encontros.

Em Lisboa é a praça do Rossio. Em Lourenço Marques era a esquina do cinema Scala, onde neste cinema vi filmes de inesquecíveis.
Em frente, no Café Continental, ao sabor de um café firmavam-se muitos negócios! Agora o Continental está com outro ramo de actividade e perdeu o encanto e o movimento dos outros tempos.
Com a visita ia apagar imagem que guardo desta “célebre” esquina.
Também o “Passeio dos Tristes” na marginal, junto ao restaurante Zambi, competia com o movimentado “Passeio no Calçadão”, em Copacabana.
Aos domingos sentado no paredão em frente ao Zambi, escutava os relatos de futebol dos jogos da Metrópole, o “Hit Parade” da estação B do Rádio Clube e dizia “piropos” às raparigas que passeavam. Tudo isto mudou! E ia substituir estes atributos por uma nova experiência que me iria decepcionar!
Era na movimentada praia do Dragão d´Ouro e Miramar, semelhante a outras de renome mundial, onde com os amigos jogava à bola e com as “bifas” (raparigas sul-africanas de férias no parque de campismo) aprendia o “inglês de praia”.
Esta praia tal como a conheci, já não existe!
O local está mudado e deu lugar a novos hotéis que nada me dizem!
E que dizer dos cinemas e teatros que frequentava?
Sei que alguns estão como os conheci! Outros estão fechados, uns com os nomes mudados e ainda outros com novos ramos de actividades.

O Gil Vicente com o Salão de Chá ao lado. E a seguir o prédio Lusitana da Agência Mercantil
Até o Salão de Chá do cinema Gil Vicente, onde no 1.º andar ia estudar com o meu “grupo”, depois da saída do (“grego”) seu arrendatário (?) está alterado ou fechado.
Também alguns dos “meus” clubes já não existem! Simplesmente fecharam ou alteraram os símbolos e nomes.

Edifício sede do Clube Ferroviário
Embora o Grupo Desportivo 1º de Maio fosse o clube pioneiro nas actividades desportivas (1917), um outro, o Clube Ferroviário permanece inalterado e tem sido o paladino na formação de desportistas!
Quero com a fotografia, da sua sede, saudar os desportistas e atletas que serviram todos os clubes da cidade. Alguns, infelizmente, já não estão entre nós.
Os estabelecimentos de ensino que ia encontrar são os que deixei, agora renovados!
Mudaram os nomes e alguns também o nível do grau de instrução.

Escola Rebelo da Silva, A minha escola primária
Se os tampos das carteiras onde me sentava nas salas de aula falassem, recordavam-me os nomes das namoradinhas que lá escrevi! Esses nomes foram apagados, ou as carteiras substituídas.
Agora na qualidade de ex-aluno, estes estabelecimentos deixaram de ter os interesses que tiveram quando na qualidade de aluno!
E o que contar do local onde morava, no bairro da Maxaquene, junto aos Velhos Colonos e das pastelarias Princesa e Pigalle?
Já não ia encontrar os Velhos Colonos de outrora. Onde o Sr. Matos nos ensinava a nadar.

Piscina dos Velhos Colonos. Ao fundo Av. Afonso de Albuquerque e à direita o salão de festas
As inesquecíveis tardes dançantes dos domingos, animadas pelos conjuntos da época, acabaram! Assim como as gostosas sandes de carne assada, em “bolinha pequena”, acompanhadas da refrescante coca-cola, que saboreávamos ao fim da tarde.
Possivelmente existem outras actividades para os mais novos!
A movimentada Pastelaria Princesa, onde tomava café, comia o “bife à Princesa”, servido pelo Paulinho pai do toureiro Ricardo Chibanga, e com os amigos falávamos de tudo, com preferência para o desporto! Desde que a gerência do Sr. Rodrigues saiu, a qualidade piorou.
Agora mudou de nome, chama-se Mimo! E o prédio necessita de restauro exterior.
O Salão de chá Pigalle ficava na av. 24 de Julho um pouco abaixo da Princesa, na direcção da baixa. O seu interior também estava bem decorado e até tinha uma máquina avançada para a época, consola de videoclipe. Lembro-me que foi nesta consola que, por 5escudos, vi pela 1.ª vez o videoclipe do Hervé Vilard cantar a célebre canção “Capri”.
Agora já não é Salão de Chá, é um banco. E o edifício também necessita de limpeza exterior.
E tanto mais havia para recordar!
Passados mais de 50 anos o que ia reviver que me cativasse tal como deixei?
Pouco mais que as frondosas e inesquecíveis acácias! Porque a antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, é uma cidade com muitas carências, insegurança e novas construções com bonitos edifícios para habitação.

A bonita flor de acácia e o moderno Hotel Radisson Blu em Maputo
Mas, para mim, não tem o encanto da Lourenço Marques de outrora. E por muito que o coração me diga para voltar à cidade de onde saí há muito tempo e já fui feliz, para não apagar a imagem que guardo do passado não a quero visitar.
Termino como comecei:
Sei que o que ia encontrar era diferente, porque o passado nunca mais pode ser recriado. Os locais e as circunstâncias mudaram e já não são iguais ao original.
Quis o destino que, por opção, viesse para este País que já foi, e agora voltou a ser, o meu! Onde até os meus amigos vieram ter comigo e tenho aqui um bem-estar superior ao que teria em Maputo se tivesse optado por ficar a viver depois da independência.
- Fotos retiradas com a devida vénia de: Delagoa Bay, housesofmaputo e Wikipédia.
Para nós com o BigSlam, o mundo já é pequeno…Muito pequeno!
João Santos Costa – Fevereiro de 2026




16 Comentários
josé carlos alves da silva
Tudo bem descrito. Nunca mais voltei a Moçambique, meu país, e à minha Quelimane Zambézia. Triste, é realidade. Abraços para todos bom 2026
Moises Santos Gil
Compreendo e concordo em pleno a razão do nosso interior não nos impulsionar voltar onde já fomos felizes. As recordações daquele tempo permanecerão em nós, nos bons momentos ou nos menos bons! Não devemos sobrepor imagens que nos ofuscassem o nosso trajeto e vivencia.! Abraço
José Gonçalves
Tive um tio chamado Manuel Gonçalves, infelizmente já falecido, que esteve seis anos em Lourenço Marques, onde foi abrir, na baixa da cidade, a sucursal Laurentina da Casa da Sorte. Agora, essa casa, embora mantenha lá o nome, é uma loja de modas. O meu tio tinha um Volkswagen Carmen Ghia, e contacta-me que levava as “bifas” a passear neles. Para ele foram tempos inesquecíveis.
Eu, desde que vim em 2002, nunca mais lá voltei. Tenho adiado essa viagem, ano após ano. Mas compreendo perfeitamente o teu ponto de vista, João. Como habitualmente, um grande artigo, cheio de nostalgia.
Um abraço.
José Gonçalves
Victor
Bela reportagem parabéns abraço
António de Lemos
Concordo plenamente. Visitei-a por duas vezes em regime profissional e o que lá encontrei já não era o mesmo. Mas o que mais me impressionou foi a falta da “gente” daquele tempo. Além da cidade ser bonita a “gente” era fantástica. E isso perdeu-se.
João Fidalgo Ribeiro
Vivi na cidade da Beira onde fui feliz, voltar a Moçambique nunca mais, nem de férias.
Vivo em Portugal onde nasci e sou muito feliz
Eduardo Serrano
É isso mesmo amigo João. Apesar de não ter vivido em permanência na nossa saudosa Lourenço Marques, revivi neste teu artigo os mesmos momentos que também vives-te. Também pelas mesmas tuas razões nunca mais voltei a Moçambique onde vivi os melhores tempos da minha mocidade. Nunca quis conhecer a cidade de Maputo. Lourenço Marques sempre.
Um abraço
José Manuel Bulcão Pereira
Faço minhas as palavras do João Santos Costa. Não quero estragar a excelente memória dos anos cincoenta e sessenta, passados na maravilhosa E SEGURA Lourenço Marques. Os melhores anos de minha vida, mesmo estando 43 meses, em Boane, LM e Vila Cabral.,
Carlitos
Deixei Lourenço Marques em 76 quando já Maputo, andei com perspectiva de voltar a vê-la, com ânsia e saudades retornei em 96, deixei desde aí, desiludido e desliguei me definitivamente, físico e moralmente. De acordo com as comparações das fotos acima, na minha memória fica uma foto dos bons tempos contra a foto das ruínas do coliseu em Roma. Pura e simplesmente perda de tempo I dinheiro em lá ter voltado, em contrapartida foi bom ter visto a realidade com os próprios olhos. Já não é a terra q me viu nascer q está no meu coração mas sim a terra q me vê viver é que é a minha terra. Ambanini terra natalícia.
Rosalina Rasteiro
Eu também lá vivi , desde os meus 14 anos até aos 28. Adorava aquela cidade,ainda hoje tenho muitas saudades. Foi naquela linda catedral que casei. Quando olho para as fotos do meu casamento e vejo a frente do prédio Funchal onde vivi durante alguns anos, saudade bete com forte.
eduardo m. paulo
Nasci la’ em 1960 & morei la’ ate’ aos meus 13 anos.
Retornei em 1985 para me relembrar o passado. Nos anos 2001 ate’ 2015 – e ja’ com 50 e poucos anos, andei por Mocambique a fazer trabalhos…estava enamorado pela “minha terra”.
Perdi esse namoro porque o pais esta’ estragado por causa da “violacao a ser feita pelos chineses” ( meu comenta’rio, so’ !)
Aquela terra esta’ podre – os chineses roubam tudo ‘a superficie.
Bolas para isso !
Luis Russell Vieira
Vivam, Laurentinos, Coca-Colas e Moçambicano(a)s em geral,
Eu teria ficado em Lourenço Marques, Maputo a partir de 1975. Não conhecia outra vida nem cidade, mas em 1977 tive de abandonar a minha terra natal – eu e muitos outros milhares de moçambicanos – porque houve alguém que fez uma lei para nos expulsar. Também nunca mais lá voltei nem voltarei, digo isto com tristeza e muita pena.
Parabéns ao João Santos ‘namoradeiro’ Costa por mais um excelente artigo sobre a nossa linda Lourenço Marques, no tempo em que podíamos dizer uns piropos saudáveis, respeitosos e próprios da idade, sem sermos logo rotulados disto ou daquilo e acusados de algum tipo de crime.
Kanimambo!
2luisbatalau@gmail.com
KANIMAMBO. DESDE 1974 QUENUNCA MAIS VOLTEI NEM VOLTO!
ABRAÇO
Ricardo Alves
Caro João Santos,
Com uma lágrima a correr pela face eu também nunca mais voltei ou voltarei â terra onde nasci, onde a minha mãe nasceu e onde a minha avó também nasceu.
Se “recordar é viver”, eu ainda vivo em Lourenço Marques, a terra que eu amo e me viu nascer, onde fui feliz, muito feliz, nunca por nunca voltarei à cidade de Maputo, que nada tem para me dar!
A minha felicidade parou no dia 28 de Fevereiro de 1976 e a minha vida correu célere e com poucas mas boas recordações aqui em Portugal.
Obrigado por ter escrito o que penso.
Ricardo Alves.
Jorge Oliveira
Estive em Moçambique nos últimos 6 anos por duas vezes, por cada dois meses, e foi um sentimento de felicidade e de esperança que o país se desenvolva para bem de todos os moçambicanos.
BigSlam
É impossível não nos revermos nesta viagem, nesse “não voltar” que tantos de nós compreendemos tão bem.