Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo
(2ª parte)
Falarmos da figura de Jorge Jardim, é algo complexo e a ideia resultante das muitas ações por si desencadeadas e assinaladas com elevado grau de risco, configuraram-no factualmente como um homem sem medo, e que acima de tudo amava Moçambique. A sua reputação de um agente audaz, baseou-se em várias missões secretas que levou a efeito, muitas delas de forma clandestina e por iniciativa própria.
Jorge Jardim, admirador confesso de James Bond, o agente secreto fictício ao serviço da espionagem britânica, criado pelo escritor Ian Fleming, construiu a sua imponente mansão, configurada com uma torre de controlo e uma pista de aterragem para o seu avião privado, o que desde logo sublinha a sua personalidade de um homem de muitas aventuras.
No início década 60, uma das mais marcantes do século passado, estalava a Guerra Civil no Congo Belga e Jorge Jardim, então Deputado da Assembleia Nacional, era contatado por Oliveira Salazar, apelando aos seus préstimos para se deslocar ao Congo, e colaborar na ponte aérea em marcha, com a missão de retirar cidadãos portugueses e belgas após a declaração da Independência daquele território.
A situação mais crítica registava-se em Bakwanga, que distava a 1.300 Quilómetros de Kinhasa. Com o dia a amanhecer, o agente português aterrou o avião que o transportava no aeroporto local, e para não ser reconhecido envergou uma farda da companhia angolana DTA (Direção dos Transportes de Angola).
Ao ser confrontado pelo Administrador da cidade que o interrogou e lhe pediu a sua identificação, Jorge Jardim, exibiu-lhe apenas a sua carta de piloto aviador. Os soldados congoleses algo desconfiados e adversos à presença de estrangeiros na região, mandaram descer a tripulação do aparelho e Jorge Jardim, foi aprisionado e levado para uma sala para ser sujeito a um julgamento relâmpago.
A sentença proferida ditava o seu fuzilamento e uns dias depois corria a notícia que o davam como morto, mas tal só não aconteceu porque o deputado congolês David Odir, na observação da carteira que continha os seus documentos, achou uma fotografia que transportava sempre consigo da sua numerosa família onde pontificava uma criança órfã chinesa, por si adotada.
Contou a sua história e estabeleceu rapidamente uma empatia contagiante, gerada com extrema audácia. Acabou absolvido, como de seguida obteve autorização para levantar voo depois da inspeção ao avião e não terem sido achadas armas no seu interior. Uma situação dramática por que passou, porém insuficiente para o demover de prosseguir o seu espírito aventureiro.
Em Janeiro de 1961, Jorge Jardim, depois de solicitado os seus serviços parte em missão para o Brasil, tentando recolher informações sobre o sequestro do paquete Santa Maria, que fazia a rota turística entre Lisboa e Maimi, capturado pelo capitão Henrique Galvão, um dissidente político que se opunha a Oliveira Salazar.

Capitão Henrique Galvão
Jorge Jardim, tentando passar incólume e transmitir informações ao governo, criou de forma enganosa uma empresa brasileira de óleos e sabão que mantinha relações comerciais com a Sociedade Nacional de Sabões (SONABEL). A correspondência redigida em código era então dirigida ao presidente da SONABEL, a quem competia decifrar o conteúdo da mensagem ao governo português.
Há quem o afirme que Jorge Jardim, terá muito possivelmente alugado um pequeno barco e envergando o papel de jornalista, subiu a bordo onde se encontrou com Henrique Galvão, tentando quiçá apurar propósitos e consequências políticas.
Recordo hoje, que um comunicado dado a conhecer à imprensa que fazia a cobertura do acontecimento, reportava que o Santa Maria, poderia rumar até ao porto de Luanda, atraindo para a capital angolana todas as atenções. Uma manobra que serviria para chamar a Angola, o olhar da comunidade internacional para a Guerra Colonial, na noite de 4 de Fevereiro com ataques às esquadras da capital e focos de rebelião no interior.
O luxuoso paquete Santa Maria, acabaria por atracar em Recife, onde Henrique Galvão, e o comando que o acompanhava obtiveram asilo político no Brasil.
Chegado a Moçambique, Jorge Jardim, deparou-se com um pedido urgente de Oliveira Salazar, apelando aos seus préstimos no sentido de ajudar os fazendeiros que em Angola, enfrentavam as hostilidades dos nacionalistas da UPA, nos ataques desencadeados às suas propriedades próximas de Carmona.
Jorge Jardim, reuniu à sua volta um corpo de voluntários sendo alguns seus funcionários e depois de alguns dias de treino, partiram no seu bimotor para Luanda. De partida para a zona de combate, Jorge Jardim deu ordens para se proceder à blindagem de um jipe Land-Rover, e o seu grupo veio a integrar um pelotão de intervenção rápida sob o comando do capitão Firmino Miguel.
Por sua vez o piloto João Barreto, a partir do seu avião e por ordens de Jorge Jardim, foi decidido estabelecer um código de cores estampado na fuselagem e que se destinavam a indiciar o ponto de situação no terreno de operações.
Em Dezembro de 1961, soaram os alarmes em S. Bento, e Salazar convoca de urgência o Conselho de Ministros. Jawaharlal Neru, o Primeiro-ministro da União Indiana, líder político e governamental ordena a ação militar para anexar Goa, Damão e Diu, depois do impasse político, uma vez que Oliveira Salazar, se recusava a negociar a soberania, considerando os territórios parte integrante de Portugal.
A União Indiana, invade Goa e mobiliza para a “Operação Vijay” cerca de 45 mil militares, apoiado por meios navais e aéreos. As forças portuguesas com 3.500 soldados e equipados com armamento obsoleto, acabaram por serem feitos prisioneiros, depois do último Governador-Geral do Estado Português na Índia, General Vassalo e Silva, ter assinado a rendição incondicional dos seus comandados na noite de 19 de Dezembro de 1961.
Seguiu-se o embarque dos militares portugueses detidos e conduzidos para campos de concentração de Goa e no interior da Índia, onde se manteriam até Maio de 1962.
De forma retaliatória, Oliveira Salazar, pede de imediato a detenção de cidadãos indianos a residirem em Moçambique, que serviriam de moeda de troca e garantir assim o regresso dos soldados portugueses de Goa.
É neste contexto que Jorge Jardim, é chamado de urgência a Lisboa, ao Ministério do Ultramar onde reúne com Oliveira Salazar e Adriano Moreira, que lhe destinam uma missão ultra secreta no sentido de tentar negociar a libertação dos soldados portugueses e recuperação de património.

Na noite de 17 para 18 de dezembro de 1961, a União Indiana ataca por terra, ar e mar os territórios de Goa, Damão e Diu. Imagem publicada em http://anapaulafitas.blogspot.com
Jorge Jardim, tendo informações de que um reputado comerciante indiano da Beira, de seu nome Kalyanji Bhagvanji Kakoobhai, bem aceite nos círculos governamentais da índia, passaria informações confidenciais e traçou de imediato um plano operacional.
Aproveitando a ausência do referido comerciante, que viajara para Lourenço Marques ou Lisboa, agentes ligados a Jorge Jardim (ou o próprio agindo de forma discreta) terão forçado a entrada na residência de Kalyanji Kakoobhai, e retirado do interior documentos comprometedores.
No regresso a Moçambique, Jorge Jardim aborda Kalyanji Kakoobhai, e avisa-o que entrou na sua residência e que detinha em sua posse provas que o poderiam expor perante as autoridades. Para o intimidar mais, afirmou-lhe que a mulher e o filho tinham sido sequestrados no seu apartamento em Lisboa.
Apreensivo, Kalyanji Kakoobhai, ligou de imediato aos seus familiares, confirmando-lhes estes que um homem de porte físico considerável e a merecer desconfiança estava muito perto do seu alojamento. Kalyanji Kakoobhai, deduziu que poderia ser algum inspetor da PIDE, mas na verdade foi Jorge Jardim, que por sua conta e risco ali colocou um segurança contratado.
Com este golpe, Jorge Jardim “aproximou-se” de Kalyanji Kakoobhai, e sabendo também do seu interesse pessoal e o da comunidade indiana, em ver os seus compatriotas libertados de Moçambique, estabeleceram entre si um acordo de colaboração que se tornaria como ponto crucial para as negociações.

Jorge Jardim e Kalyanji Kakoobhai, partiram para a Suíça, onde o agente português conseguiu um passaporte falso e doravante passou a ser conhecido pelo Senhor Pereira.
Chegados a Nova Deli, tiveram contatos com altas figuras do governo indiano, incluindo o Ministro dos Negócios Estrangeiros, V.C Trivedi. O primeiro gesto de boa vontade, resultou na libertação de jornalistas portugueses em troca de cidadãos indianos detidos em Portugal.
Entretanto, os Ministros Adriano Moreira e Franco Nogueira, iam recebendo informações através de uma enfermeira paraquedista disfarçada de hospedeira.
Para a conclusão deste delicado processo o Governo do Brasil, por sinal o único canal diplomático oficial através do seu Embaixador em Nova Deli, e do Cônsul em Goa, que visitavam os soldados portugueses aprisionados.
Finalmente realçar a comunicação resultante das negociações secretas (levadas a efeito por Jorge Jardim e Kalyanji Kakoobhai) e a proposta final foi transmitida à União Indiana através de Notas Diplomáticas entregues pela embaixada do Brasil.
Em Maio de 1962, o navio Vera Cruz zarpava da Índia, transportando os soldados portugueses com destino a Lisboa, enquanto em situação de igualdade de direitos, viajaram para Carachi os prisioneiros da comunidade indiana que se encontravam em Moçambique.



O primeiro acto da missão de Jorge Jardim estava concluído, porém outras aventuras esperavam por ele na exótica Índia, que reportarei no próximo post: Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo (3ª parte)
Manuel Terra – Março de 2026




5 Comentários
2luisbatalau@gmail.com
CHOANA!!!
José Gonçalves
Sabia de alguns factos, mas não de todos nem tão pormenorizado. Sempre a aprender… Obrigado, amigo Manuel Terra. Aquele abraço.
Manuel Martins Terra
Um abraço para ti, Zé Gonçalves.
Samuel Carvalho
Um retrato fascinante de uma figura tão marcante quanto controversa. Jorge Jardim surge aqui quase como um verdadeiro ‘James Bond’ à portuguesa, num contexto histórico complexo e cheio de nuances.
Parabéns ao autor por mais um contributo que nos prende do início ao fim e enriquece a memória de Moçambique.
BigSlam
Um retrato envolvente de Jorge Jardim.
Mais um excelente contributo de Manuel Terra, para a memória de Moçambique.