Os 100 anos do jornal Noticias de L. Marques (Maputo)
Os 100 anos do Jornal NOTÍCIAS
15 de abril de 1926 – 15 de abril de 2026
Assinala-se hoje um marco histórico na comunicação social moçambicana: o centenário do Jornal NOTÍCIAS, o mais antigo e durante décadas o diário de maior circulação em Moçambique. Um século de existência que atravessa diferentes épocas da história do país, acompanhando mudanças políticas, sociais e culturais e deixando um legado que permanece vivo na memória de várias gerações.
A história do NOTÍCIAS começa com a visão e a determinação do Capitão Manuel Simões Vaz, militar português destacado para São Tomé e Príncipe e, posteriormente, para Moçambique durante a Primeira Guerra Mundial. Em janeiro de 1920 decidiu abraçar definitivamente o jornalismo, assumindo a direção da secção portuguesa do bissemanário Lourenço Marques Guardian, que mais tarde passaria a designar-se simplesmente Diário.
Seis anos depois, movido pelo desejo de criar um jornal diário, fundou o NOTÍCIAS, cuja primeira edição saiu para a rua a 15 de abril de 1926. Os primeiros tempos não foram fáceis. Para manter o jornal em funcionamento, Manuel Simões Vaz teve de suportar muitas despesas do seu próprio bolso. Paralelamente, exercia diversas atividades: foi professor de Inglês e Desenho no antigo Liceu 5 de Outubro, intérprete oficial do Tribunal, professor de português para estrangeiros residentes em Lourenço Marques e redator de atas do Conselho do Governo. Só quando o jornal começou a afirmar-se e a alcançar estabilidade financeira pôde dedicar-se inteiramente ao projeto que idealizara.
Ao longo das décadas, o NOTÍCIAS tornou-se uma referência na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), sendo durante muito tempo o diário com maior tiragem. Em certos períodos teve mesmo a companhia de uma edição vespertina, o Notícias da Tarde, que permitia atualizar a informação publicada na edição da madrugada.
Tal como acontecia com a generalidade da imprensa durante o período do Estado Novo, o jornal esteve sujeito à censura prévia do regime. Em várias ocasiões a sua linha editorial entrou em colisão com as autoridades, o que resultou em sanções e suspensões. Ainda assim, o NOTÍCIAS conseguiu afirmar-se como um espaço onde colaboraram importantes figuras do jornalismo e da literatura moçambicana, algumas delas vozes críticas do regime.
Para além do papel informativo, o jornal desempenhou também uma função ativa na vida sociocultural da sociedade laurentina. Promovia saraus culturais, iniciativas artísticas e ações de solidariedade. Um exemplo marcante ocorreu em janeiro de 1966, quando o ciclone tropical Claude atingiu violentamente a cidade. O jornal abriu então nas suas páginas uma lista de donativos destinada a apoiar as populações mais afetadas, mobilizando a solidariedade da comunidade.
Entre as muitas memórias associadas ao NOTÍCIAS, recorda-se igualmente o ambiente que se vivia em frente às vitrinas do jornal, onde eram afixadas as manchetes para quem passava na rua. Em momentos de grande impacto noticioso, como o desvio do paquete português Santa Maria, em 1961, formavam-se filas para ler as “gordas” do dia. Nos cafés da cidade, em especial no histórico Café Continental, jornalistas e colaboradores reuniam-se frequentemente em animadas conversas sobre política, cultura e atualidade.

A esquina do Café Continental, no cruzamento entre as Avenidas da República e Dom Luiz, atualmente as Avenidas 25 de Setembro e Marechal Samora Machel.
Um dos momentos mais marcantes da história do jornal ocorreu com a Revolução do 25 de Abril de 1974. Nesse dia, quando a cidade ainda despertava, a edição do jornal já estava impressa, contendo ainda pouca informação sobre os acontecimentos em Lisboa. À medida que as notícias chegavam, o NOTÍCIAS lançou novas edições vespertinas ao final da tarde e à noite, já com comunicados do Movimento das Forças Armadas. Essas edições esgotaram rapidamente, levando multidões a concentrar-se diante do edifício do jornal em busca de um exemplar.
Nos dias seguintes, tal como aconteceu com outros jornais da cidade, como o Diário e a Tribuna, os exemplares desapareciam rapidamente das mãos dos ardinas. Numa época em que a televisão não existia em Moçambique, a imprensa escrita e a rádio eram as principais fontes de informação para a população.
Com a independência de Moçambique e as profundas transformações políticas que se seguiram, o NOTÍCIAS entrou numa nova fase da sua história, passando a assumir o papel de porta-voz do novo poder emergente liderado pela FRELIMO, refletindo a orientação política e social do período.
Ao longo do tempo, o jornal foi evoluindo e adaptando-se aos desafios do setor da comunicação social. Hoje, com sede em Maputo e contando com cerca de 150 jornalistas em todo o país, o NOTÍCIAS continua a ser uma referência do jornalismo moçambicano. A partir da década de 1980, o grupo expandiu-se com novos produtos editoriais, como o semanário Domingo e o jornal Desafio, além da unidade gráfica instalada na província de Maputo.
Para Júlio Manjate, presidente do Conselho de Administração da Sociedade do Notícias, o jornal representa também uma verdadeira escola de comunicação social: um espaço onde gerações de profissionais aprenderam, cresceram e contribuíram para o desenvolvimento do jornalismo no país.
Ao longo de 100 anos, o NOTÍCIAS procurou manter uma filosofia de trabalho assente na informação responsável e no serviço à sociedade. Hoje, perante novos desafios e com o panorama mediático moçambicano cada vez mais diversificado, continua a procurar adaptar-se às mudanças, explorando também novas áreas, como a edição de livros e serviços editoriais.
Celebrar este centenário é, acima de tudo, recordar uma longa caminhada iniciada em 1926, marcada por dificuldades, conquistas e profundas transformações históricas. Um percurso que atravessou dois grandes ciclos da história de Moçambique: primeiro como jornal de uma sociedade colonial e, mais tarde, como órgão integrado na nova realidade do país independente.

Instalações do Jornal Notícias, nos anos 50.

Instalações do Jornal Notícias, nos anos 60.

Instalações do jornal Notícias em Maputo, permanecem no mesmo local, na esquina das ruas Joaquim Lapa e da Maxaquene. Morada: Rua Joaquim Lapa, 55 Caixa Postal 327 Maputo – Moçambique
Hoje, ao completar 100 anos de vida, o Jornal NOTÍCIAS permanece como um símbolo da imprensa moçambicana e uma referência histórica da cidade que o viu nascer – a antiga Lourenço Marques, hoje Maputo.
Fotos retiradas com a devida vénia dos Blogs: The Delagoa Bay e House of Maputo
Texto de Manuel Terra adaptado



5 Comentários
Francisco Martins
Eu assino.por baixo amigo Samuel Carvalho!!
Grande e honroso percurso!!
Francisco O. Martins
omartins@sapo.pt
Eduardo Serrano
Parabéns ao jornal de Noticias de LM. O jornal mais importante ao tempo naquela linda e saudosa cidade. Em finais dos anos cinquenta tantos domingos à tarde passei na varanda do ediifício do Notícias para ouvir o relato dos jogos de futebol da Metrópole. (Nem sempre havia papel para ir à matiné). Um neto do Capitão Manuel Vaz ,meu colega de colégio pediu nas oficinas do jornal uma placa de chumbo com o meu nome que adorei. Pequenos pormenores que nos fazem recordar aqueles lindos tempos que lá passei. Saudades.
Ricardo Quintino
Recordar é viver. Abraços a todos os expatriados como eu.
Ricardo Quintino
Samuel Carvalho
Parabéns ao Jornal Notícias de Lourenço Marques/Maputo pelo seu 100.º aniversário!
Um século a informar, a acompanhar gerações e a fazer parte da história de Moçambique. Que continue a honrar o seu legado com a mesma dedicação, rigor e paixão pelo jornalismo.
Uma data marcante que merece ser celebrada com orgulho!
BigSlam
Um século de páginas escritas que guardam memórias, testemunhos e histórias de várias gerações. Um património que continua a fazer parte da história e da identidade de Moçambique.