Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo
(4ª parte)

Na viagem secreta à Zâmbia, avalizada por Hastings Banda, Jorge Jardim encetou contactos com o presidente Kenneth Kaunda, professor e astuto político defensor da causa pan-africanista e, até então, um dos apoios mais consistentes da FRELIMO durante a luta armada.
Se no Malawi Jorge Jardim se sentia confortável e seguro, na Zâmbia “jogava” em terreno hostil, levando o agente português a usar uma diplomacia de terapia de choque, assente na pressão económica extrema.
Ao contrário do Malawi, a Zâmbia permitia que a FRELIMO estabelecesse bases logísticas e campos de treino em larga escala no seu território. Foi a partir da Zâmbia que a FRELIMO desencadeou ataques sucessivos sobre a região de Tete, quase nos finais da década de 60 do século passado, chegando a pôr em causa os trabalhos de construção da Barragem hidroelétrica de Cahora Bassa.
Tal como o Malawi, a Zâmbia era um país encravado em Moçambique e dependia, na essência, das maiores colónias portuguesas para exportar o cobre, base da sua economia. Jorge Jardim advertiu Kenneth Kaunda de que o seu país ficaria “entalado” se Portugal fechasse o Porto da Beira ou a Linha de Benguela, caso persistisse em continuar a apoiar a FRELIMO.
Jorge Jardim falou-lhe, pela primeira vez, do plano que tinha em mente para o Tratado de Paz, que tornaria Moçambique num país independente, com um governo de maioria negra moderada, havendo posteriormente lugar a eleições e referendos.
Kenneth Kaunda foi ouvindo e aceitou ser mediador nesse processo e retirar o apoio logístico à FRELIMO, tendo como contrapartida a garantia de que o governo português aceitasse esse acordo.
Jorge Jardim, nas entrelinhas, não deixou de considerar que Kenneth Kaunda estivesse a ganhar tempo e a manter-se fiel a Samora Machel, usando a concordância estabelecida mais para sondar as fraquezas de Portugal do que para efetivamente selar um acordo real.
Por sua vez, a FRELIMO continuava, a partir da Zâmbia, a tentar a todo o custo sabotar os trabalhos na Barragem de Cahora Bassa. Jorge Jardim perdeu a sua habitual calma e utilizou os seus círculos de informações, que lhe indicavam as rotas de infiltração para Tete. De imediato, pediu a Kenneth Kaunda, e sem contrapartidas, que mandasse policiar a sua área fronteiriça. Se a ordem não fosse cumprida, ameaçou destruir a economia zambiana.

Kenneth Kaunda
Nestas movimentações, Jorge Jardim, com “olhos de lince”, nunca perdeu o foco em relação à Tanzânia. A partir do Malawi, estabelecia contactos com canais muito próximos de dirigentes da FRELIMO em Dar es Salaam.
O presidente Eduardo Mondlane era visto por Jorge Jardim como um interlocutor intelectual e moderado com quem poderia negociar um modelo para a independência de Moçambique.
Jorge Jardim tinha informações fidedignas sobre a clivagem e as tensões geradas pelo Comité Central da FRELIMO, assentes de forma clara em questões tribais, intelectuais e de racismo.
As tensões ideológicas eram centrais e predominava um clima de mal-estar entre aqueles que defendiam uma linha mais moderada e pragmática e os que advogavam uma abordagem mais radical e marxista.
Também a presença de militantes não-negros na liderança da FRELIMO gerava pontos de tensão entre os seus membros. Jorge Jardim sabia que Eduardo Mondlane, casado com uma americana branca, causava demasiados embaraços dentro do movimento nacionalista, e isso naturalmente preocupava-o.

Foto tirada em Dar es Salaam, 1965. Da esquerda, o Dr. Pascoal Mocumbi, Dr. Mondlane, a Sra. Cora Weiss, uma legendária ativista de esquerda norte-americana, e o não menos carismático Amílcar Cabral. (Foto da coleção particular da Sra. Weiss)
Jorge Jardim corria contra o tempo e começou a aumentar a frequência das visitas à Zâmbia, que, por razões de segurança, decorriam na reserva de caça de Mfume.
Doravante, Jorge Jardim e Kenneth Kaunda passaram a desenvolver uma amizade pessoal e de confiança, de tal forma que Kaunda chegou a descrever o enérgico agente português como alguém que “conhecia a alma africana”, algo raro de se ouvir.
Jorge Jardim viveu, no entanto, períodos conturbados, com o acidente — a queda da cadeira de repouso — que viria a causar a morte de Salazar, o homem que lhe conferira plenos poderes, quase como “um Estado dentro do Estado”. Pouco depois, morreu também a sua esposa, que sempre o apoiara, contando neste delicado momento com o apoio da sua numerosa família.
Alguns meses depois, tomou conhecimento da morte de Eduardo Mondlane, vitimado por uma carta armadilhada, atentado atribuído pela FRELIMO à PIDE. Jorge Jardim, porém, desconfiou que tivesse sido obra da linha dura do partido, ala atribuída a Samora Machel e Marcelino dos Santos, defensores das teorias marxistas.
Certo é que o atentado que tirou a vida a Eduardo Mondlane alterou o posicionamento de Julius Nyerere em relação a Jorge Jardim. No imediato, o líder da Tanzânia, sob influência de Pequim, radicalizou as suas posições e expurgou vários membros do seu governo, entre eles o mediático Óscar Kambona, então ministro dos Negócios Estrangeiros e seu interlocutor, que se refugiou em Londres.
Jorge Jardim planeou então uma tentativa de golpe de Estado para derrubar Julius Nyerere. João Maria Tudela foi o homem escolhido para a missão de raptar o ex-ministro tanzaniano, numa operação designada por “Operação Óscar”, acompanhado por uma espia: Palmira Barral, ex-candidata a Miss Moçambique.

Foto retirada com a devida vénia do Observador
João Maria Tudela, interpretando o papel de um playboy endinheirado, frequentava bons hotéis e usava vários nomes de código, seguindo à risca os conselhos de Jorge Jardim.
Usando o nome de código “The Count”, Tudela abordou Óscar Kambona com diplomacia e viajou com ele até Paris, onde ficou sob tutela dos Serviços Secretos Franceses, com identificação falsa.
De Paris, Óscar Kambona rumou a Lisboa, onde se reuniu com Jorge Jardim, ficando o político africano alojado num hotel lisboeta.
Jorge Jardim sabia que era o momento de agir, considerando a fragilidade do governo da Tanzânia e a crise interna da FRELIMO após o assassinato de Mondlane.
Adiantou a Óscar Kambona que suportaria toda a operação logística, recrutando mercenários a que se juntariam dissidentes e rebeldes tanzanianos, que receberiam treino no norte do território moçambicano.
Este comando entraria no país para tomar de assalto pontos estratégicos e eliminar Julius Nyerere. Jorge Jardim alertou ainda para a necessidade de criarem emissões de rádio para anunciar a “libertação” do país por ação de Kambona, tentando evitar a imagem de intervenção direta de Portugal.

Óscar Kambona
A designada “Operação Batuque” acabaria por se gorar por intervenção dos serviços de Inteligência de Nyerere, infiltrados nas redes de Kambona.
Em Portugal, preparava-se a tomada de posse de Marcelo Caetano, com os portugueses na expectativa de novos tempos. Jorge Jardim viajou até Lisboa e reuniu com o novo Presidente do Conselho.
A primeira reunião frente a frente foi marcada por uma tensão latente, já previsível, dadas as divergentes visões políticas de ambos, num duelo entre o “teórico de Direito” e o “homem de ação” que durou algumas horas.
Para Marcelo Caetano, Jorge Jardim era alguém com demasiada autoridade e que sempre contornara o desempenho dos ministros.
Jorge Jardim sabia que tinha de agir rapidamente. Rumou a Moçambique e depois à Zâmbia. Já não restavam dúvidas de que tinha de chamar a si o comando das operações, antecipando-se ao inevitável colapso do regime em Portugal.
Percebeu que o colonialismo clássico tinha expirado com Salazar e que a moderação tinha morrido com Mondlane.

Eduardo Mondlane 1920 – 1969
Odiado pela FRELIMO e temido por ser considerado demasiado perigoso, Jorge Jardim estava no “coração do furacão”, quase abandonado à sua sorte.
Através da rádio, Jorge Jardim ia estando atento às chamadas “Conversas em Família”. O que mais lhe suscitou atenção foi o facto de Marcelo Caetano tentar convencer os portugueses de que o abandono das colónias portuguesas seria o fim da soberania e da influência portuguesa.
Jorge Jardim, pouco agradado com esta mensagem, rumou rapidamente para a Zâmbia, para conversar e tratar com Kenneth Kaunda dos pontos fundamentais do “Tratado de Lusaka” e da respetiva discussão.
Jorge Jardim confessara a Kenneth Kaunda a sua tristeza por muitas atrocidades cometidas contra o povo moçambicano, defendendo a melhoria socioeconómica das populações. Para ele, o tratado colocado em cima da mesa era a melhor forma de evitar o pior cenário no futuro, atendendo a que a FRELIMO não tinha quadros capazes de garantir uma governação estável, ficando à mercê das grandes potências, como a União Soviética e a China, interessadas nas matérias-primas do território moçambicano.
O Plano de Jorge Jardim, ou Plano de Lusaka, compreendia alguns detalhes que ele discutia com Kenneth Kaunda. O objetivo central era a chamada “Terceira Via”: uma independência que evitasse tanto a continuação do domínio colonial direto como a entrega total e imediata do poder à FRELIMO.
Moçambique tornar-se-ia um Estado soberano, mas mantendo uma ligação económica e de defesa com Portugal durante o período de transição.
Jorge Jardim propunha a aceitação das comunidades brancas e de todas as etnias negras, criando uma coligação de forças moderadas.
O plano previa a consulta à população para validar a nova estrutura política, esperando que a FRELIMO não obtivesse uma maioria absoluta caso tivesse de competir com outros movimentos internos.
Kenneth Kaunda serviria de mediador e estava disposto a apoiar o conteúdo do plano, porque temia que uma guerra civil no território moçambicano destruísse a economia da região, evitando também a interferência soviética e chinesa.

- Não perca o próximo capítulo desta história. Iremos revelar como reagiu Marcelo Caetano ao documento elaborado por Jorge Jardim que viria a ficar conhecido como o Tratado de Lusaka.




3 Comentários
2luisbatalau@gmail.com
KANIMAMBO CARO MANUEL TERRA PELOM EXCELENTE TEXTO , ELUCIDATIVO DOS PRBLEMAS DE MOÇAMBIQUE E SEUS VIZINHOS. ABRAÇO
Samuel Carvalho
Parabéns, Manuel Terra, por mais este excelente trabalho de pesquisa e partilha. Ao recuperar episódios, personagens e acontecimentos que marcaram a história de Moçambique, contribuis para preservar uma memória coletiva que importa conhecer, compreender e transmitir às novas gerações.
Bem-haja por mais este valioso contributo para o património histórico e cultural que o BigSlam tem o privilégio de divulgar.
BigSlam
Mais um capítulo fascinante sobre uma das figuras mais marcantes e controversas da história de Moçambique. Independentemente das diferentes leituras que se possam fazer de Jorge Jardim, é inegável o interesse deste trabalho de investigação, que nos ajuda a compreender melhor uma época decisiva do nosso passado. Parabéns ao autor.