Acção meritória aa Avó Cecília, em Maputo
Uma cidadã anónima moçambicana, Cecília Mate de seu nome, tomou a iniciativa de criar uma biblioteca móvel para as crianças do bairro da Mafalala, em Maputo, incentivado nelas o gosto pela leitura, numa forma de as manter positivamente entretidas e, em consequência, enriquecendo-as culturalmente.
Tendo em conta a acção meritória, altruísta e de compromisso cívico desta moçambicana, num contexto de carências de toda a ordem que afectam a maioria da sociedade civil moçambicana, achei por bem compartilhar com os(as) leitores(as) de BigSlam esta sua empreitada. Para tal, transcrevo uma reportagem publicada na SICnotícias online:
“Avó Cecília cria biblioteca móvel e incentiva à leitura em bairro de Maputo
No histórico bairro da Mafalala, Maputo, a avó Cecília percebeu que é de “pequenino que se torce o pepino” e criou uma biblioteca móvel que disponibiliza mais de mil livros, incentivando nas crianças o gosto pela leitura. “Vejo que é necessário, porque a maior parte das crianças e jovens já não têm o gosto pela leitura. Então, estou a incentivar o gosto das crianças”, disse Cecília Mate, 77 anos, em entrevista à Lusa, naquele histórico bairro da capital moçambicana.
A ideia surgiu em 2013, quando a avó Cecília, como é tratada localmente, se reformou como bibliotecária na Biblioteca Nacional, para aproveitar melhor o tempo. Criou uma biblioteca móvel no histórico bairro da Mafalala, onde nasceu e ainda vive, para incentivar o gosto pela leitura, sobretudo em crianças. Este projeto só seria materializado dois anos depois e, naquela altura, ainda com força nos pés, empurrava o carrinho de mão com livros pelos becos da Mafalala, disponibilizando-os para a leitura, sendo que desistir nunca esteve em hipótese para uma mulher que concluiu a licenciatura em Gestão e Estudos Culturais aos 65 anos.
“Em 2013 estava a trabalhar numa escola, estava a ensinar a fazer trabalho técnico de uma biblioteca, propriamente dito comecei em 2015, andando de rua em rua e, chegando nos sítios com a minha carrinha e a minha mesa, e nessa altura tinha bancos (…), eu instalava aí e punha os meus livros em exposição e as crianças começavam a ler”, disse.
Agora, avó Cecília sente o peso da idade, com a visão a começar a falhar. Também já não pode mais empurrar o carrinho pelos becos do bairro, estando a guardar parte das centenas de livros do espólio na sua casa antiga, no quarto que era dos seus pais, que transformou em depósito.
É assim que diariamente se junta a menores na rua de Timor, ao ar livre, no coração do bairro da Mafalala, em que coloca cadeiras e bancos para acomodar petizes que ali vão para ter acesso aos mais de mil livros que a avó Cecília tem, desde o infantojuvenil até livros didáticos da 1.ª até à 12.ª classe do ensino geral.
“A maior parte é oferta da biblioteca nacional, do Ministério da Educação e outras entidades, a Fundação Fernando Leite Couto também fez uma angariação durante um mês para me oferecer alguns livros, mas no princípio os livros eram meus, eu comprava, bastava receber comprava um ou dois”, disse, detalhando que começou com uma coleção de cinquenta livros comprados nos alfarrabistas.
Para ela, o projeto está a ser bem-sucedido, com o número de menores a crescer a ler, com dias que chegam a ter mais de 80 crianças: “com a junção que tenho com a associação Utopia, temos algumas escolas que fazemos oficinas, alguns trabalhos manuais e, enquanto as crianças estão com trabalhos manuais, eu estou com a minha mesa de livros, quem está cansado de trabalhos manuais senta e lê lá na associação”, contou, frisando que há uma colaboração permanente com pelo menos seis escolas do bairro.
Avó Cecília explicou que decidiu incentivar as crianças a gostarem de ler porque “é de pequenino que se torce o pepino” e “porque elas ficam a conhecer-se a si mesmas e ao mundo em geral, porque são várias estórias”.
No começo, teve dificuldades para fazer a comunidade compreender o seu projeto, tendo sido até chamada de “maluca”, mas agora são os pais que levam e querem ver as crianças a aprender com a avó Cecília.
“Como há esta coisa de meios digitais, os livros já não têm muita aderência, por isso que estou a incentivar, para que as crianças do bairro da Mafalala possam conhecer o que é o livro e gostar”, disse. “As crianças não leem, mesmo estando aqui, só folheiam, querem ver figuras, então eu tenho que estar ao lado e para isso tenho feito concurso de leitura. Quem ler bem ganha um doce, às vezes, ou palmas”, acrescentou.
A avó Cecília foi professora no período colonial, por isso, na sua biblioteca móvel, naquele espaço ao ar livre onde ensina a brincar, além da leitura, oferece jogos de algarismos, alfabeto, incentivando as crianças a construir palavras e frases a partir do jogo de letras.
Agora, para ela, é urgente ter um espaço para armazenar livros que ficam no depósito, muitos deles encaixotados, porque já viu mais de 200 deles serem danificados pela chuva, devido à infiltração das águas no local.“Tenho muitas dificuldades, como vê este espaço sempre tenho que pagar alguém para limpar e como estamos no tempo chuvoso está um pouco desorganizado e é um sítio onde põem o lixo, então são esses desafios. Gostaria de ter uma biblioteca comunitária avó Cecília, mas também essa biblioteca junta a um centro cultural para várias atividades para a minha comunidade da Mafalala”, disse à Lusa.

Para materializar o propósito, conta com o apoio da Universidade Eduardo Mondlane, através da Escola de Comunicação e Artes (ECA), do projeto Utopia, e da estrutura do bairro que todos buscam financiamentos.”
Fim da transcrição.
Pierre Vilbró, Maio 2026



6 Comentários
nino ughettoo
Muito bem ,bravo avo Cecilia, é a sua terra sào a sua familia.. Ela sabe o que foram os “”moçambicanos””” que viveram là antes da partida dos (portugueses moçambicanos “” que foi e o que é presentemente.é verdade que esses jovens so nasceram depois do 25 d’Abril e nào sabem nem nunca saberào o que era os bons tempos em que là estavamos todos unidos numa so Patria… Certo que nem todos véem a situaçào da mesma maneira.. Mas a verdade é so uma, Nem vala a pena se falar, “” Tudo passou Tudo acabou””. O que estamos nos a fazer agora ???Vejam bem a situaçào dos portugueses moçambicanos expulsos da sua propria terra de màos vazias ?? OK ! Tudo esta bem para todos, ainda bem !!.. Nào para mim que tudo perdi ,Minha infancia minha historia meus familiares e amigos casa, trabalho tudo.. etc..Nào foi facil !,( Agora estou super bem ,pois tive que refazer a minha vida)) Mas Nào esqueço o que nos fizeram…OK.
João Santos Costa
É assim mesmo, Avó Cecília! Muitos parabéns pela sua motivação e dedicação motivando a juventude para o que há de mais nobre, a leitura!
O governo, os políticos e as elites deveriam aprender e estender esta nobre iniciativa a outros bairros e a outras cidades.
Mas será que aprendem?
2luisbatalau@gmail.com
KANIMAMBO AVÓ CECÍLIA. UMA IDEIA BRILHANTE QUE O GOVERNO MOÇAMBICANO NUNCA TEVE. GOSTO PELA LEITURA E CULTURA, PARA OS JOVENS MOÇAMBICANOS.
PARABÉNS AVÓ CECÍLIA
Abreu Vicente Vicente
Parabéns a avó Cecília pela iniciativa e seria bom que mais iniciativas destas se espalhassem por todo o território nacional.
Samuel Carvalho
Um artigo inspirador que nos recorda que a verdadeira grandeza de uma pessoa mede-se pelos gestos de solidariedade e dedicação ao próximo. A ação meritória da Avó Cecília é um exemplo de altruísmo e humanidade que merece ser reconhecido e divulgado. Parabéns ao Pierre Vilbró por nos dar a conhecer esta bonita história, que nos faz acreditar que pequenos gestos podem transformar muitas vidas em Moçambique.
BigSlam
Um belo exemplo de solidariedade e generosidade. Gestos como o da Avó Cecília fazem a diferença na vida de muitas pessoas e merecem ser divulgados e aplaudidos. Parabéns Pierre Vilbró por esta inspiradora partilha.