Amália Rodrigues, a voz de Portugal que também encantou Moçambique

Amália da Piedade Rodrigues nasceu em Lisboa, no “tempo das cerejas”, como gostava de recordar. A própria Amália adotou o dia 1 de julho de 1920 como data do seu aniversário, embora no assento de nascimento conste que nasceu às cinco horas do dia 23 de julho, na Rua Martim Vaz, freguesia da Pena. A incerteza nunca pareceu incomodá-la. Pelo contrário, explicava com o seu característico sentido de humor: “Talvez por ser essa a altura do mês em que havia dinheiro para me comprarem os presentes”. O Museu do Fado confirma que Amália celebrou sempre o aniversário no primeiro dia de julho, apesar da data oficial registada.
Nascida numa família humilde, Amália conheceu desde muito cedo as dificuldades da vida. Antes de se tornar artista, trabalhou como bordadeira, engomadeira e vendedora de fruta no Cais da Rocha, em Lisboa. Foi, porém, através da sua voz singular, carregada de emoção, saudade e verdade, que conquistou primeiro Portugal e, depois, o mundo.
Mais do que uma fadista, Amália tornou-se um dos maiores símbolos da cultura portuguesa. Levou o fado aos principais palcos internacionais, atravessando fronteiras, línguas e culturas. A partir do início da década de 1950, realizou longas digressões internacionais, tornando-se uma presença rara em Portugal e uma verdadeira embaixadora da música portuguesa.


A presença de Amália não se limitava aos grandes palcos. Em 1969, visitou o Destacamento Sanitário Militar de Lourenço Marques, onde cantou para militares hospitalizados. Rodeada por homens feridos e afastados das suas famílias, ofereceu-lhes aquilo que melhor sabia dar: a sua voz, a sua proximidade e alguns momentos de conforto.

Jornal Notícias – 10.07.1969



Retrato de Amália Rodrigues, pintado em Paris, na década de 1960, pela sua amiga Maluda. A obra testemunha não só a admiração da pintora pela fadista, mas também a relação de amizade que unia duas figuras maiores da cultura portuguesa.
- Maluda (Maria de Lurdes Ribeiro) foi talvez a pintora portuguesa mais popular e distinguida na última metade do século XX. Nasceu em Goa, antigo estado português na Índia, a 15 de novembro de 1934, e mudou-se para Moçambique em 1948.
Há igualmente registos de uma atuação no Teatro Nacional de Lourenço Marques, em 1972, onde interpretou, entre outros temas, “Fado Português”, com poema de José Régio e música de Alain Oulman.
As viagens de Amália a Moçambique aconteceram num período histórico complexo, ainda marcado pela realidade colonial e, mais tarde, pela guerra. A sua presença deve, por isso, ser compreendida dentro das circunstâncias políticas e sociais da época. Contudo, para muitos dos que a escutaram, Amália representava sobretudo algo que ultrapassava essas circunstâncias: uma voz associada à língua portuguesa, à memória, à saudade e às ligações afetivas entre pessoas separadas por milhares de quilómetros.
Existe ainda uma curiosa ligação musical entre Amália e Lourenço Marques. O célebre tema “Uma Casa Portuguesa”, que se tornaria uma das canções mais conhecidas do seu repertório, nasceu da colaboração de autores ligados à então capital moçambicana: Vasco Matos Sequeira, Reinaldo Ferreira e o compositor Artur Fonseca. A canção, imortalizada pela voz de Amália, tornou-se conhecida em todo o mundo.
Amália Rodrigues faleceu em Lisboa, a 6 de outubro de 1999, deixando um legado artístico incomparável. A sua voz continua viva nas gravações, nas memórias e nas histórias daqueles que tiveram a oportunidade de a ouvir.
Em Moçambique, como em tantos outros lugares, a passagem de Amália deixou recordações profundas. Nos teatros, nos estádios ou junto dos doentes hospitalizados, a fadista cantava com a mesma entrega. Levava consigo Portugal, mas recebia também o carinho de uma terra onde o fado encontrara público, músicos e poetas.
Amália levou o fado ao mundo e Moçambique foi também uma das importantes etapas dessa extraordinária viagem.
- Algumas fotos foram retiradas com a devida vénia do blog – The Delagoa Bay World de António Botelho de Melo.
Terá sido acompanhada pelos músicos Santos Moreira e Raúl Nery, convivendo também com artistas e músicos locais, como os elementos da Orquestra Ritmo.




No que resta atualmente daquele espaço encontram-se duas placas comemorativas, uma das quais dedicada à fadista portuguesa. Nela está assinalada a data da abertura do restaurante, na noite de quinta-feira, 29 de março de 1951, ocasião em que a grande diva do fado português ali atuou.




Um Comentário
BigSlam
Amália Rodrigues foi muito mais do que a voz do fado: foi a voz de Portugal que atravessou fronteiras e conquistou gerações. Em Moçambique, a sua presença e as suas interpretações deixaram memórias que o tempo não apagou. Recordar Amália é também revisitar uma época, reviver emoções e celebrar uma das maiores figuras da cultura portuguesa.
O artigo recorda ainda uma ligação especial entre Amália e o desporto moçambicano, através das fotografias com o Grupo Desportivo 1.º de Maio e da entrega de um troféu de hóquei em patins em 1957, em que a equipa «moçambicana» alcançou uma vitória histórica sobre a seleção de Espanha, então campeã mundial, por expressivos 5–1. São pormenores que enriquecem esta homenagem e o nosso Baú das Memórias.