Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo
(6ª parte)
De Jorge Jardim, poderá dizer-se que encontrou na Embaixada do Malawi o refúgio transformado em extensão do país onde ele mantinha uma relação privilegiada junto do presidente Hastings Banda. E quem o conhecia sabia que não era homem que ficasse sentado à espera do destino, como se não houvesse o dia de amanhã.
Os dias que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 foram marcados por um país em ebulição, mas também por uma incerteza profunda e uma reorganização total da sociedade portuguesa. Portugal passou do silêncio à “explosão” da democracia e, independentemente de se encontrar protegido, Jorge Jardim sabia que, fora das portas da embaixada, o espetro era de vigilância apertada.
O Governo Provisório português e o COPCON (Comando Operacional do Continente) mantinham a Embaixada do Malawi sob observação constante. A presença do agente secreto criou um incidente diplomático, pois Portugal não podia invadir solo estrangeiro, mas também não queria permitir que a figura mais controversa do colonialismo escapasse.
Jorge Jardim sabia que teria de agir rapidamente e começou, desde logo, a traçar o planeamento da sua fuga para Espanha. Com a ajuda de amigos e alguns agentes estrangeiros que procuravam a Embaixada do Malawi, começaram a esboçar a fuga, preparada ao mais detalhado pormenor.
A viagem teria de ser por estrada, evitando as vias principais, onde o controlo do MFA era mais apertado, obrigando Jorge Jardim a redobrados cuidados de forma a evitar riscos e, consequentemente, a ser detido.
Estudou a região de Castelo de Vide, por onde partiria para Espanha, ainda sob o regime de Franco, e conseguiu cartas detalhadas do terreno e fotografias da raia fronteiriça, essenciais para mais um episódio de ação.

O planeamento da fuga.
Na véspera de deixar Portugal, assegurou à filha Patucha, que todos os dias lhe levava o almoço, que não iria fugir. Antes ainda, deixou algumas cartas para a cunhada, o irmão e a filha em cima da secretária que ocupava.
Arranjou o saco que, para além de roupas, levava escondidas duas granadas defensivas, mortais num raio de 50 metros, caso fosse abordado.
O momento da retirada foi estabelecido para as 5 horas e 32 minutos, depois de 23 dias com estatuto de refugiado na Embaixada do Malawi, e ocorreu precisamente quando a iluminação pública da capital portuguesa se desligava, pouco depois rendida pelo romper da aurora.
Jorge Jardim era retirado por uma janela traseira que dava para o pátio, contando com o apoio de operacionais da secreta francesa (SDECE), que discretamente o conduziram para um automóvel que ostentava a chapa de Corpo Diplomático (CD), sendo introduzido no porta-bagagens.

A retirada de Lisboa
A França tinha África na mira de grandes negócios e justificava o apoio a Jorge Jardim, considerando-o um ativo valioso, com contactos em todo o continente africano.
O automóvel que o conduzia partiu a uma velocidade moderada, de forma a não levantar suspeitas, e seguiram para Castelo de Vide, uma zona de serra com estradas sinuosas, onde um carro diplomático passaria por uma viatura em circuito turístico, longe de olhares vigilantes.

Fronteira de Castelo de Vide, por onde Jorge Jardim passou para a Espanha
Chegado aos caminhos da raia, quiçá levado por um contrabandista fiável, cruzou a fronteira evitando o posto aduaneiro oficial, caminhando por trilhos de terra batida e por circuitos de contrabando.

A passagem da fronteira
Já em solo espanhol e em terreno seguro, o Serviço de Inteligência Espanhol tinha ordens diretas para proteger figuras de relevo que fugissem da revolução portuguesa. Foram estes agentes que garantiram que Jorge Jardim não fosse intercetado pelas autoridades fronteiriças comuns.
Ao chegar a Madrid, Jorge Jardim dirigiu-se para os aposentos do fadista João Braga, que também se encontrava exilado. Encontraram-se no parque de estacionamento do prédio onde este vivia, no centro da capital espanhola.

O fadista João Braga
Jorge Jardim encontrou não apenas um teto, mas um ambiente de confiança onde se discutiam discordâncias do programa do MFA, mas também o futuro de Moçambique, e se planeavam os passos de um contra-golpe.
Jorge Jardim tinha conhecimento da forma apressada com que o Governo Português queria transferir para as mãos da FRELIMO os destinos governamentais de Moçambique, temendo inclusive qualquer interferência vinda do exterior proveniente do homem que mais temiam e que lhes fugira entre os dedos.
Em Madrid, Jorge Jardim encontra-se com o General Kaúlza de Arriaga, que conheceu no Norte de Moçambique, exilado e que criou o Movimento para a Independência e Reconstrução Nacional.

General Kaúlza de Arriaga
Discutiram a forma como se estava a processar a transferência de poderes e o seu plano para Moçambique.
Embora a casa de João Braga fosse um refúgio seguro, Jorge Jardim não era homem para ficar de mãos atadas e começou a delinear uma nova estratégia. Ali começou a escrever as primeiras páginas do livro MOÇAMBIQUE TERRA QUEIMADA, como uma resposta direta e uma denúncia ao processo de Descolonização.

Livro “Terra Queimada” de Jorge Jardim
Jorge Jardim tinha consciência de que Espanha, a atravessar já alguma turbulência política gerada pela implementação da democracia em Portugal, já não seria um refúgio seguro e, de uma forma geral, toda a Europa, pelo que a escolha de uma nação africana fora do contexto marxista seria mais precisa para a continuação do seu projeto, que consistia em apoiar a resistência contra a FRELIMO.
Jorge Jardim apostava todas as fichas e, para ele, podia perder tudo, à exceção de Moçambique, a terra dos seus sonhos.

Em Madrid novos planos
A sua próxima fuga seria para o Gabão, o principal aliado da França na África Subsariana, e que oferecia a Jorge Jardim algo que Espanha poderia, a breve prazo, não garantir: imunidade total face a possíveis e mais do que esperados pedidos de extradição, emitidos pelo Governo Português.
- Não perca o próximo e último post: Jorge Jardim no Gabão. Novas movimentações, novos desafios e um objetivo que continuava a dominar o seu pensamento e a orientar os seus passos: Moçambique, a terra que nunca deixou de considerar sua e pela qual continuaria a lutar até ao fim.
Para ler ou recordar os artigos anteriores desta série, basta clicar nos links abaixo (escritos azul):
Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo (1ª parte)
Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo (2ª parte)
Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo (3ª parte)
Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo (4ª parte)
Jorge Jardim o agente BOND do Estado Novo (5ª parte)




2 Comentários
Samuel Carvalho
Vigiado em Lisboa, em fuga para Espanha e com Moçambique sempre no horizonte. A saída clandestina de Jorge Jardim de Portugal constitui um dos episódios mais surpreendentes do seu percurso político. Num período de profundas transformações, os seus contactos internacionais e as movimentações em Madrid revelam a determinação de continuar a intervir no processo de descolonização. Moçambique permanecia no centro das suas preocupações e estratégias, numa altura decisiva para o futuro do território.
BigSlam
Uma fuga digna de um romance de espionagem, marcada pelo risco, pela coragem e pela intriga política. Jorge Jardim atravessou fronteiras, procurou novos aliados e continuou a colocar Moçambique no centro dos seus planos e preocupações. Um capítulo fascinante de uma história que ainda tinha muito para contar!
Kanimambo Manuel Terra!